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NEXO CAUSAL
Reconstrução de acidentes de trânsito

Colisão de trens de alta velocidade em Urda, na Espanha, começou com falha do sistema de sinalização LZB

Vagões de um trem AVE descarrilados e destroços ao lado da via, com bombeiros e um caminhão de emergência em primeiro plano
Foto: Carlos Rosillo, conforme El País

Um trem AVE da estatal Renfe atingiu a traseira de um trem da empresa privada Iryo que estava parado na linha de alta velocidade Madri-Sevilha, no quilômetro 118, entre as cidades de Mora, Orgaz e Urda, na província de Toledo, às 8h54 de quarta-feira, 28 de outubro de 2026, e as primeiras indicações do governo espanhol apontam para um erro humano cometido depois de uma falha no sistema principal de sinalização da linha, segundo a cobertura do jornal El País.

O balanço

Os dois trens, que seguiam de Madri para Sevilha, levavam 544 passageiros, sendo 146 e um bebê no trem da Iryo e 397 no Renfe 2080, e o impacto fez dois carros do Iryo descarrilarem e caírem por um aterro, de acordo com o Ministério dos Transportes.

Ainda em 28 de outubro de 2026, o presidente do governo regional de Castilla-La Mancha, Emiliano García-Page, atualizou o balanço para 68 mortos, 15 feridos graves e 53 feridos com lesões menos graves, e fontes do governo central disseram esperar que o número de mortos subisse quando as equipes tivessem acesso completo aos carros destruídos do Iryo.

Da falha da sinalização à ordem de partida

A linha usa o sistema alemão LZB (Linienzugbeeinflussung), que monitora de forma contínua a velocidade dos trens e transmite as instruções de circulação para a cabine do maquinista, e quando essa proteção automática falha a operação passa para controle manual, segundo a declaração de rede da Adif, a estatal que administra a infraestrutura ferroviária.

Os primeiros relatos indicam que o sistema falhou na quarta-feira e que cerca de oito trens da região pararam, depois do que o centro de controle passou à operação manual e mandou todos retomarem a viagem, mas o trem da Iryo não conseguiu partir e ficou parado na via.

As gravações das conversas com o centro de regulação e controle de Atocha, em Madri, mostram que o controlador mandou o maquinista do AVE, que vinha atrás, retomar a “marcha normal”, em velocidade normal, em vez da “marcha a vista”, de 40km/h, que permite ao maquinista ver a tempo qualquer obstáculo na via e frear, e o AVE chegou a uma velocidade estimada de 200km/h antes de bater no Iryo, de acordo com reportagem de Carlos E. Cué publicada pelo El País em 29 de outubro de 2026.

A maquinista do Iryo, que tinha recebido a mesma ordem de seguir, ligou sete minutos depois para o centro de controle para avisar que continuava parada porque não conseguia religar o trem, e mesmo assim ninguém avisou o maquinista do AVE de que precisava frear imediatamente, ainda segundo o jornal.

Para o governo, o primeiro grande erro foi mandar o AVE voltar a andar às 8h36 sem que o centro de controle tivesse confirmado que o Iryo já se afastava, e em velocidade normal, quando o protocolo exige a marcha mais lenta enquanto não se confirma que o trem da frente está a mais de 30km de distância, e o El País informou que o trem da Renfe percorreu 25km desde a falha da sinalização até a colisão.

As camadas de proteção da linha

A Madri-Sevilha é a linha de alta velocidade mais antiga da Espanha, inaugurada em abril de 1992 para a Exposição Universal de Sevilha, e está em modernização, com a troca do LZB pelo ERTMS (European Rail Traffic Management System) de nível 2, padrão europeu que também supervisiona velocidade e frenagem de forma contínua, mas por comunicação de rádio, e não por informação transmitida em pontos fixos por equipamentos de via.

A segurança da linha combina ainda o ASFA, sistema de anúncio de sinais e frenagem automática que passa informações de balizas na via para o maquinista e pode frear o trem em certas situações, como ao passar um sinal de parada, o bloqueio automático (BCA), os sistemas de detecção de trens previstos na norma técnica de sinalização da Adif (NAS 811), que dividem a via em seções e identificam se cada uma está ocupada, e a rede de comunicação GSM-R entre trens e centros de controle.

A investigação

O primeiro-ministro Pedro Sánchez foi a Urda e disse que a Comisión de Investigación de Accidentes Ferroviarios e as autoridades judiciais já trabalham no caso, enquanto o próprio ministério tenta determinar a causa, e afirmou que, se houve negligência, ela virá à tona e que, se houve falhas no sistema de segurança, haverá resposta firme.

O tribunal da comarca de Orgaz vai conduzir a investigação judicial, e os investigadores terão de reconstruir toda a sequência, da possível falha de sinalização à ordem para os trens seguirem e à colisão, para verificar se os procedimentos previstos foram cumpridos e se erros técnicos ou humanos contribuíram para o acidente.

Sindicatos ferroviários rejeitaram atribuir a culpa aos trabalhadores antes do fim das investigações, e o Sindicato de Circulación Ferroviaria (SCF) chamou atenção para a idade de parte dos equipamentos de informática do centro de controle de Atocha, que segundo a entidade ainda tem equipamentos da década de 1990.

O acidente ocorreu nove meses depois do de Adamuz, na província de Córdoba, que matou 46 pessoas, e Sánchez disse que não é aceitável que um país como a Espanha sofra dois acidentes ferroviários desse porte no mesmo ano.

Fonte original: El País (edição em inglês), Nuria Morcillo, 28.Out.2026.

Marcadores: acidente ferroviário, trem de alta velocidade, sinalização ferroviária, LZB, Espanha.