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NEXO CAUSAL
Toxicologia forense

Erin Patterson perde recurso no caso dos cogumelos venenosos e passa a cumprir prisão perpétua sem condicional

Dois cogumelos cicuta-verde, de chapéu amarelo-esverdeado e base branca, no chão de folhas secas de uma floresta
Foto: Krzysztof Ślusarczyk (CC BY 3.0), conforme Wikimedia Commons

A Corte de Apelação do estado de Victoria, na Austrália, rejeitou na sexta-feira, 30 de outubro de 2026, todos os fundamentos do recurso de Erin Patterson, de 52 anos, contra a condenação por três homicídios e uma tentativa de homicídio com cogumelos cicuta-verde (death cap), e, ao acolher o recurso da acusação, retirou o prazo mínimo de 33 anos para pedir liberdade condicional, de modo que a pena de prisão perpétua só termina com a morte dela, segundo a ABC News.

O almoço de julho de 2023

Em 29 de julho de 2023, Patterson serviu bife Wellington na casa dela, em Leongatha, a Don e Gail Patterson, pais do ex-marido, a Heather Wilkinson, irmã de Gail, e ao marido de Heather, Ian Wilkinson, e os quatro passaram mal com sintomas compatíveis com envenenamento por cicuta-verde, segundo o resumo do julgamento publicado pela 1News, da Nova Zelândia.

Don e Gail, ambos de 70 anos, e Heather, de 66, morreram nos dias seguintes, e Ian, de 71, sobreviveu depois de tratamento intensivo que incluiu um transplante de fígado, enquanto Patterson sempre negou o crime e sustentou que o envenenamento foi acidental.

O que a toxicologia mostrou

No julgamento, de 2025, o toxicologista-chefe de Victoria, Dimitri Gerostamoulos, explicou que a cicuta-verde contém principalmente três toxinas, a alfa-amanitina, a beta-amanitina e a gama-amanitina, e que os exames das amostras foram feitos pelo Victorian Institute of Forensic Medicine, segundo relato do The Nightly.

As duas primeiras toxinas foram encontradas na urina de Don Patterson, colhida cerca de 32 horas depois da refeição, e Ian Wilkinson teve beta-amanitina detectada no soro no dia seguinte ao almoço e alfa-amanitina na urina cerca de 73 horas depois, enquanto no sangue de Gail e de Heather não se acharam as toxinas, que, segundo o toxicologista, têm meia-vida curta e somem do sangue muito mais rápido do que da urina.

Nas amostras de Erin Patterson colhidas cerca de 51 horas depois do almoço nenhuma toxina foi detectada, e a equipe do hospital relatou que ela não apresentava sintomas compatíveis com envenenamento por cogumelo, embora tenha dito à polícia que comeu a mesma refeição.

Nas sobras, a micologista Camille Truong não viu sinal de cicuta-verde ao microscópio, mas o laboratório achou beta-amanitina numa de quatro amostras de pasta de cogumelo e numa amostra de carne, e Gerostamoulos explicou a diferença dizendo que o instituto não depende de detecção visual e usa instrumentos sensíveis capazes de detectar quantidades muito pequenas, invisíveis a olho nu.

A defesa lembrou que as amostras de massa, pasta e carne não foram separadas por ingrediente, o que o toxicologista admitiu, mas no material vegetal achado dentro de um desidratador de alimentos foram detectadas alfa e beta-amanitina, toxinas que, perguntado pelo juiz, ele disse serem encontradas “exclusivamente” na cicuta-verde.

O toxicologista estimou a dose letal das amatoxinas em cerca de 1mg por quilo de peso e disse que, para um adulto de 70kg, cerca de 50g do cogumelo, ou três colheres de sopa, seriam letais, embora tenha concordado que idade, peso, saúde, atendimento recebido e resposta individual influenciam o desfecho.

O rastro digital e material

O desidratador foi a peça que ligou a toxicologia à investigação, porque Patterson negou à polícia ter um aparelho desses, mas um manual foi encontrado na casa e imagens de câmera de segurança mostraram uma mulher descartando um desidratador num ponto de coleta de lixo pouco depois do almoço, segundo a 1News.

O detetive Stephen Eppingstall, que chefiou a investigação, apresentou provas de que o computador de Patterson foi usado em maio de 2022 para acessar o iNaturalist, site de ciência cidadã que registra avistamentos de cicuta-verde, e a acusação mostrou dados de que ela foi até a cidade de Loch, onde havia registro de cicuta-verde, horas antes de comprar o desidratador.

O celular entregue à polícia tinha sido restaurado às configurações de fábrica três vezes nos dias seguintes ao almoço, e outro aparelho, chamado no processo de “Phone A”, perdeu a conexão com a rede durante a busca policial na casa e nunca foi achado.

Os fundamentos rejeitados

Os advogados apresentaram sete fundamentos, e a corte só admitiu o exame de dois, o de que o júri ficou hospedado no mesmo hotel que integrantes da acusação e uma testemunha policial e o de que os dados de antenas de celular, usados para indicar que ela esteve em áreas com registro de cicuta-verde, eram especulativos e não deviam ter ido ao júri, segundo análise de especialistas em direito publicada pelo The Conversation.

A corte concluiu que não havia possibilidade real de a hospedagem ter afetado os veredictos, já que a própria defesa admitiu não haver prova de contato entre jurados e acusação ou polícia, e considerou admissíveis os dados de antenas e do iNaturalist, por serem relevantes para a acusação, que era baseada em prova circunstancial.

Entre os cinco fundamentos que nem passaram dessa etapa estavam a alegação de que o juiz do julgamento errou ao excluir fotos e vídeos de cicuta-verde achados num cartão SD antigo na casa de Patterson, o que, segundo a defesa, a obrigou a depor para explicar o interesse dela por coleta de cogumelos, a tentativa de excluir mensagens que ela escreveu no Facebook sobre a família do ex-marido e as queixas contra o interrogatório feito pela promotora Nanette Rogers.

A pena e o que resta

O juiz Stephen McLeish disse que a intenção de matar as quatro vítimas durou quase três semanas, do convite para o almoço ao preparo da refeição e ao longo sofrimento que se seguiu, e os juízes classificaram o caso como de criminalidade “tão chocante” que não cabe fixar prazo mínimo para condicional.

Patterson é só a segunda mulher na Austrália condenada à prisão perpétua sem possibilidade de liberdade condicional, segundo a Al Jazeera, e o único caminho que resta é pedir à Suprema Corte da Austrália (High Court) autorização especial para recorrer, pedido que, pelas ordens da Corte de Apelação, deve ser apresentado até 27 de novembro de 2026.

Fonte original: ABC News (Austrália), Kristian Silva e Tim Callanan, 30.Out.2026.

Marcadores: toxicologia forense, amanitina, prova circunstancial, recurso criminal, Austrália.