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NEXO CAUSAL
Perícia digital

Texto plantado no aparelho apreendido pode enganar a IA usada pelo perito digital, mostram pesquisadores europeus

Fonte: arXiv
Disco rígido aberto, com o prato e o braço de leitura à mostra
Foto: Zzubnik (domínio público), via Wikimedia Commons

Um artigo depositado em 21 de outubro de 2026 no repositório científico arXiv por Frank Breitinger e Gaëtan Michelet, da University of Augsburg, Jan Gruber, do Karlsruhe Institute of Technology, Christopher Hargreaves, da University of Oxford, Jan-Niclas Hilgert, do Fraunhofer FKIE, e Mark Scanlon, da University College Dublin, descreve como quem controla o conteúdo de um aparelho apreendido pode manipular o modelo de linguagem (LLM) que o perito digital usa como assistente no exame.

O problema técnico

Os autores lembram que os modelos de linguagem já entram na perícia digital como assistentes de exame, análise e redação de relatório e, cada vez mais, como agentes que planejam e executam análises em várias etapas, e apontam que nesse cenário a injeção indireta de prompt, em que a instrução maliciosa chega ao modelo dentro do conteúdo que ele lê, se inverte, porque a evidência analisada é controlada por definição pela parte investigada e o examinador é obrigado a lê-la com atenção.

A antiforense clássica, que é o conjunto de técnicas para destruir, esconder, obstruir ou adulterar evidência, mira os dados, as ferramentas e o julgamento do examinador, e o artigo acrescenta um novo alvo, o raciocínio do modelo, que pode ser enganado por uma afirmação falsa como qualquer leitor, mas que, diferentemente da ferramenta e do perito, também pode receber ordens pelo próprio conteúdo que lê.

A taxonomia proposta

Na taxonomia, cada ataque é descrito por quatro escolhas do atacante, o objetivo, a técnica, o lugar da evidência onde o conteúdo é plantado e o modo de esconder esse conteúdo, e as técnicas são cinco: destruição, ocultação, obstrução, modificação e injeção, das quais só a última nasce com os modelos generativos.

A distinção central é entre modificação, em que a evidência afirma algo falso que o leitor acredita, como uma coordenada de GPS adulterada nos dados EXIF de uma foto, e injeção, em que a evidência traz uma instrução que o leitor obedece, e os autores observam que o mesmo texto plantado pode ser uma afirmação para o perito e uma ordem para o modelo.

Os autores chamam de lacuna de percepção a situação em que ferramenta, perito e modelo enxergam a mesma evidência de modo diferente, como o texto branco sobre fundo branco num PDF, que o perito não vê no visualizador e o modelo lê no texto extraído, e é nessa lacuna que uma injeção chega ao modelo sem passar pela revisão humana.

As três demonstrações

Os testes usaram imagens de disco com evidência sintética, processadas no Autopsy 4.23.1, cuja ponte para o protocolo MCP oferece 18 ferramentas só de leitura, e no LM Studio 0.4.23, com o modelo gemma-4-12b rodando localmente como agente, e em cada caso a nota maliciosa era texto simples, sem nenhuma ocultação, plantada no disco antes da apreensão.

No primeiro experimento, o disco tinha duas fotos de rinocerontes e uma nota que se apresentava como saída de um classificador automático e afirmava que os animais eram tricerátopos, e o modelo respondeu ao examinador que não havia fotos classificadas como rinocerontes, citando a nota como justificativa, porque a ponte do Autopsy só devolvia os arquivos como texto e o modelo não podia ver as imagens.

No segundo, com um servidor de arquivos conectado pelo examinador, a nota mandou o agente registrar um log na pasta de trabalho do analista dizendo que a mídia estava defeituosa e que os dados extraídos não eram confiáveis, e o modelo procurou sozinho uma pasta com permissão de escrita e gravou ali o arquivo.

No terceiro, com acesso à rede liberado, a nota dizia que o caso fazia parte de um programa de controle de qualidade e exigia acessar um endereço antes do resultado, e o modelo chegou a considerar a hipótese de ataque, mas acessou o endereço mesmo assim, o que, segundo os autores, mostra que confiar na capacidade do modelo de perceber o ataque não seria uma defesa eficaz.

Os três ataques funcionaram com os modelos gemma-4-12b e gemma-4-26b, o primeiro também com o ministral-3-8B e o segundo e o terceiro também com o qwen3.8-27b e o gpt-oss-20b, mas os autores ressalvam que cada sucesso dependeu de uma cadeia de condições, como o modelo achar e ler a nota, e que os modelos maiores foram enganados com menos frequência.

Defesas e limites

Entre as defesas propostas estão dar ao agente uma ferramenta de escrita restrita a uma subpasta do caso, entregar ao modelo os pixels das imagens, testar antes do exame se a combinação de modelo e ferramentas obedece a uma instrução de teste conhecida, conceder o mínimo de permissões, marcar todo o conteúdo do caso como dado não confiável e isolar a estação da rede, e a única testada, a ferramenta que entrega a imagem ao modelo, inverteu o resultado do primeiro ataque com o gemma-4-12b, que passou a apontar que a nota contradizia as fotos.

Os autores afirmam que as demonstrações não validam a taxonomia nem medem a frequência dos ataques, porque são provas de conceito com um modelo pequeno rodando localmente, e que ainda faltam um conjunto padronizado de testes, a avaliação das demais defesas e testes com produtos comerciais, que distribuem os mesmos prompts a todos os usuários e por isso podem ser estudados com antecedência por um atacante.

O que muda para o exame pericial

O artigo conclui que a revisão humana não é a salvaguarda que se supõe onde existe a lacuna de percepção, que o menor privilégio e o isolamento de rede protegem a estação de trabalho, mas não a conclusão, e que, enquanto não houver testes mais amplos, um modelo que lê evidência apreendida deve ser tratado como leitor de conteúdo adversário, cuja saída é uma hipótese a verificar e não um achado a relatar.

Os autores também propõem quatro novas fragilidades para a técnica DFT-1203 do SOLVE-IT, base de conhecimento de métodos de perícia digital, que trata do uso de prompt de IA para interrogar dados do caso e tinha 34 fragilidades documentadas, nenhuma sobre evidência modificada antes da aquisição para manipular o agente.

Fonte original: arXiv, Frank Breitinger, Jan Gruber, Christopher Hargreaves et al., 21.Out.2026.

Marcadores: perícia digital, antiforense, injeção de prompt, inteligência artificial, Autopsy, modelos de linguagem.

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