Pesquisa canadense questiona a base científica de balística, manchas de sangue e cães farejadores

Três trabalhos de Sara Gordon, professora associada da Peter A. Allard School of Law, da University of British Columbia (UBC), questionam a base científica de três tipos de prova aceitos com frequência nos tribunais do Canadá e da América do Norte: o confronto balístico, a análise de padrões de manchas de sangue e as buscas com cães farejadores.
Um dos artigos saiu na Alberta Law Review, os outros dois vão sair na Canadian Bar Review e no Dalhousie Law Journal, e a pesquisa foi divulgada pela UBC em 5 de outubro de 2026 e repercutida pela Forensic Magazine.
“Só porque uma técnica é usada nos tribunais há décadas não significa que devemos dar a confiabilidade dela como certa”, disse Gordon, que espera que o trabalho ajude juízes e advogados a entender os limites dessas técnicas.
Segundo a UBC, a autora encontrou lacunas no apoio científico a vários métodos usados pela polícia, alguns dos quais ajudaram a obter condenações.
Confronto balístico
O exame que liga projéteis e estojos a uma arma de fogo é aceito no Canadá há mais de um século, mas Gordon conclui que as pesquisas não sustentam o grau de certeza com que os peritos costumam depor, e, em testes práticos, segundo o texto, examinadores erraram a identificação de projéteis em 37% das vezes.
O artigo sobre armas de fogo trata do uso dessa prova no Canadá, onde ela continua a ser admitida com frequência, enquanto nos Estados Unidos um tribunal de Chicago foi, em 2023, o primeiro do país a proibir esse tipo de confronto num processo criminal.
Cães farejadores
No Canadá, a polícia pode usar cães farejadores de drogas com base em suspeita razoável, exigência menor do que a aplicada às demais buscas sem mandado, e a Suprema Corte do Canadá justificou isso ao considerar essas buscas pouco invasivas, bem direcionadas e muito precisas.
Gordon revisou o que a ciência publicou desde as últimas decisões da Corte sobre o tema, de 2013, e chegou a outra conclusão, que resumiu assim: “Eles não são nem de longe tão confiáveis quanto muitos tribunais parecem supor, e, na verdade, podem ser bastante invasivos”.
Um estudo australiano constatou que não se encontrou droga depois de quase 75% dos alertas dos cães policiais, e entre as causas apontadas estão treinamento ruim, odores residuais e o cheiro de alguns ingredientes comuns de panificação, sem contar que o condutor também pode influenciar o cão sem querer.
A busca que vem depois do alerta pode causar medo, ansiedade, raiva e humilhação, e o efeito pode ser pior para pessoas racializadas.
Gordon propõe padrões mais claros de treinamento, certificação e acompanhamento do desempenho dos cães, e defende que essas buscas sigam o mesmo critério das demais buscas sem mandado.
Manchas de sangue
A análise de padrões de manchas de sangue interpreta forma, tamanho e posição das manchas para reconstruir o que aconteceu, e os tribunais canadenses a tratam há muito tempo como ciência física.
Gordon constatou que a disciplina nasceu de experimentos feitos por um químico no porão de casa, o mesmo químico que ajudou depois a criar a revista científica da área e os primeiros livros didáticos.
Os praticantes citam com frequência conceitos como dinâmica dos fluidos, embora tenham pouca ou nenhuma formação em física, e, para ela, a área “se apoia numa base científica muito mais frágil do que os tribunais costumam supor”.
Um estudo mostrou que os analistas classificaram corretamente os padrões em cerca de 70% das vezes em superfícies rígidas e em 62% em tecidos.
Outro estudo concluiu que analistas diferentes chegam com frequência a conclusões diferentes a partir do mesmo vestígio, e há ainda pesquisas mostrando que informações do caso passadas ao examinador podem influenciar a conclusão.
Os artigos defendem que os juízes atuem com mais rigor no controle de admissão da prova, para garantir que ela seja confiável e que o perito não vá além do que a ciência sustenta, e pedem também mais formação científica para advogados e juízes.
Fonte original: UBC News (University of British Columbia), 05.Out.2026.
Marcadores: balística, manchas de sangue, cães farejadores, prova pericial, Canadá.