Chave privada que era o número 4 leva a indiana eMudhra a deixar o mercado mundial de certificados de sites

A eMudhra, uma das poucas autoridades certificadoras raiz da Índia aceitas pelos grandes navegadores, anunciou que vai sair voluntariamente do mercado global de certificados SSL/TLS depois que as chaves privadas de oito dos seus certificados intermediários se revelaram tão fracas que Firefox, Chrome e Apple passaram a bloqueá-los, segundo reportagem de Jonathan Greig no The Record, da Recorded Future News.
Uma chave que qualquer um adivinha
Um certificado de site prova ao navegador que ele está falando com o servidor verdadeiro, e quem tem a chave privada de uma autoridade certificadora pode emitir certificados que os navegadores aceitam, por isso o Google, a Mozilla e outras empresas alertaram que essas chaves permitiriam a um atacante emitir certificados HTTPS falsos para sites que não controla e, se conseguisse interceptar a conexão do usuário, se passar pelo site e ler ou alterar o tráfego.
Uma chave privada desse tipo deveria ser um número aleatório com mais de 100 dígitos, mas cada uma das oito era menor que 256, de modo que basta testar no máximo 256 valores para encontrá-la, segundo o Help Net Security.
O pesquisador de segurança Scott Helme, um dos que recuperaram as chaves, escreveu que uma delas “é o número 4”, não um número que começa com 4 nem o 4 seguido de algumas centenas de dígitos aleatórios, que outra era 56 e outra 115, e que recuperou todas a partir dos certificados públicos no próprio notebook em menos de um segundo, e outros pesquisadores acharam chaves como 66, 155, 156, 230 e 237, segundo o The Register.
Helme explicou que uma chave privada P-384 deveria ser um número aleatório de 384 bits, o que dá 2³⁸⁴ possibilidades, cerca de 10¹¹⁵, um espaço que ninguém conseguiria vasculhar, e observou que, num caso comum de chave comprometida, alguém a rouba num momento identificável, enquanto aqui a chave foi, na prática, pública desde o dia em que o certificado existiu.
Como a falha foi descoberta
Um pesquisador identificado como Wayne encontrou o problema em 17 de outubro de 2026 ao rodar uma verificação na base de dados comum das autoridades certificadoras (Common CA Database, CCADB) e, para provar que as chaves estavam comprometidas, assinou com cada uma delas a mensagem “We have a problem here” e mandou o relatório para Apple, Google, Microsoft, Mozilla e eMudhra.
A Mozilla recebeu o relatório às 20h06 em UTC daquele sábado (17h06 em Brasília), e Dennis Jackson, da equipe de engenharia de criptografia da Mozilla, tornou o incidente público em 20 de outubro de 2026 no fórum de política de segurança da organização.
Pelo relatório de incidente da Mozilla, as oito chaves saíram de um lote de 24 intermediários gerado pela eMudhra em 30 de abril de 2025, seis deles usados para emitir certificados de sites e dois para assinatura de código, e todos os oito tinham sido assinados de forma cruzada pela autoridade certificadora Sectigo em maio de 2025.
A causa apontada pela empresa
No sistema de registro de falhas da Mozilla, a eMudhra atribuiu o problema a um script com defeito usado na cerimônia de geração de chaves de abril de 2025, que criou um segundo conjunto de chaves fracas cujos rótulos se pareciam com os das chaves geradas corretamente, e os funcionários escolheram as fracas ao preparar os certificados.
A empresa admitiu erros humanos em várias etapas do processo, disse que vai reexaminar todas as cerimônias de chaves que já fez e afirmou que a falha passou despercebida por 18 meses e por duas auditorias independentes antes que um pesquisador chegasse às chaves fracas por engenharia reversa.
Segundo a eMudhra, só um dos intermediários chegou a entrar em produção e nenhum foi usado para emitir certificados a clientes, e o Google relatou não ter encontrado nos registros públicos de transparência de certificados (Certificate Transparency) nenhum certificado ligado aos intermediários afetados antes do bloqueio, mas não se sabe se alguém recuperou e usou as chaves antes de a falha ser relatada.
Revogação e bloqueio
O Chrome e o Firefox bloquearam os certificados no dia do relatório, a eMudhra os revogou em 18 de outubro de 2026, a Apple fez o bloqueio no dia 19 e a Microsoft no dia 20, e o presidente do conselho da eMudhra, V. Srinivasan, disse que a revogação ocorreu em até 14 horas depois da descoberta e que não houve invasão da infraestrutura nem vazamento de dados.
A Mozilla retirou a confiança na raiz emSign ECC Root CA G3, que tinha assinado os oito intermediários, e o Google informou que a remoção dessa raiz do Chrome chegaria a todos os aparelhos na manhã de 27 de outubro de 2026, no horário do Pacífico, enquanto a eMudhra parou de emitir por essa raiz e estima em cerca de 30.000 os certificados de clientes que precisam ser trocados.
O Ministério de Eletrônica e Tecnologia da Informação da Índia disse que investiga o incidente, e o CERT-In, centro indiano de resposta a incidentes, alertou que quem explorasse as chaves poderia se passar por sites legítimos, interceptar ou alterar dados e também fazer um programa malicioso parecer assinado por um fornecedor confiável.
O risco fora do navegador
Os navegadores já estão protegidos, mas aplicativos, servidores e aparelhos que não recebem informação de revogação ainda podem confiar nos certificados, alertou Helme, e Brian Fox, cofundador da Sonatype, lembrou que os intermediários só venceriam em abril de 2040 e que contêineres antigos, aparelhos embarcados e ferramentas com lista própria de certificados podem continuar confiando neles até serem atualizados.
A fornecedora de Java Azul afirmou que o Java não verifica a revogação de certificados por padrão, de modo que um kit de desenvolvimento sem atualização poderia aceitar um certificado falso assinado com uma das chaves comprometidas, e por isso a empresa incluiu os oito certificados na lista de bloqueio das suas distribuições.
A saída do mercado
Em 22 de outubro de 2026, cinco dias depois do relatório, o conselho da eMudhra decidiu deixar o mercado global de certificados SSL/TLS, que segundo Srinivasan responde por cerca de 1% da receita da empresa, que ofereceu aos clientes certificados emitidos pela Sectigo, manteve em funcionamento as raízes G1 RSA durante a transição e prometeu entregar aos programas de raízes dos navegadores um relatório completo de causa-raiz.
Fonte original: The Record (Recorded Future News), Jonathan Greig, 22.Out.2026.
Marcadores: certificado digital, autoridade certificadora, criptografia, eMudhra, Índia.