Juíza da Flórida é suspensa por usar em campanha gravação falsa, feita com IA, de ministros da Suprema Corte

A Suprema Corte da Flórida suspendeu por 30 dias e multou em US$ 10.000 a juíza Lauren Nichole Peffer, do condado de Broward, por ter usado na campanha eleitoral uma gravação de telefonema falsa, gerada por inteligência artificial, que simulava uma conversa privada entre ministros da própria corte, segundo reportagem de Alex Ebert publicada pela Bloomberg Law em 9 de outubro de 2026, dia da decisão.
Como a gravação entrou na campanha
Em 2024, numa entrevista ao conselho editorial do jornal South Florida Sun Sentinel, em busca do apoio do jornal, Peffer afirmou que “revelações recentes” do Nono Circuito Judicial da Flórida, que abrange os condados de Orange e Osceola, tinham evidenciado uma crise de imagem no Judiciário do estado, e, quando o jornal pediu provas, ela citou um livro de um ex-funcionário do circuito que acusava juízes de corrupção, livro que ela não tinha lido.
Em seguida, a então candidata mandou ao jornal o link do site do autor do livro, onde estava a gravação de um suposto telefonema entre o presidente da Suprema Corte, Carlos Muñiz, a ministra Renatha Francis e a juíza-presidente do Nono Circuito, Lisa Munyon, segundo a acusação formal apresentada por um painel de investigação da comissão de conduta judicial do estado (Judicial Qualifications Commission) em maio de 2025 e noticiada pela News Service of Florida.
O que disse a acusação sobre o áudio
A acusação afirmou que a gravação era fabricada, provavelmente com manipulação por computador ou IA generativa, e que, embora as vozes lembrassem as dos supostos participantes, o jeito de falar, o tom e boa parte do conteúdo eram “objetivamente irreais”.
O documento acusou a juíza de não ter tomado a cautela de verificar se a gravação era fabricada antes de usá-la em público para ajudar a campanha, e registrou que ela admitiu ter ouvido apenas parte do áudio e o divulgado mesmo diante de “clara evidência de sua inautenticidade”.
A decisão
Na decisão de 9 de outubro de 2026, sem autoria declarada, a Suprema Corte da Flórida concluiu que o uso do livro e do telefonema falso violou as regras de ética que obrigam o juiz a manter a dignidade própria do cargo, e afirmou que a juíza não tinha base para sugerir desconfiança em relação aos juízes do Nono Circuito e não verificou a exatidão do livro nem da gravação em que se apoiou.
“Intencional ou não, a conduta dela abalou a confiança do público na integridade do Judiciário, ao promover acusações falsas contra o Judiciário do Nono Circuito e envolver ministros em exercício da Suprema Corte da Flórida”, diz a decisão.
Os ministros Carlos G. Muñiz e Renatha S. Francis, que tiveram as vozes imitadas no telefonema, se declararam impedidos de julgar, e o ministro Adam Tanenbaum concordou com a punição, mas divergiu da parte que manda a juíza pagar as custas administrativas do processo.
O advogado da juíza, Scott K. Tozian, disse por e-mail que Peffer está satisfeita por deixar o caso para trás e dedicar todo o seu tempo à população do condado de Broward, e os advogados que representam a comissão não responderam de imediato aos pedidos de comentário da Bloomberg Law.
O processo é o Inquiry Concerning a Judge JQC No. 2025-001, que tramitou na Suprema Corte da Flórida sob o número SC2025-0647, e o caso também foi noticiado pelo ABA Journal, da Ordem dos Advogados dos Estados Unidos, em 12 de outubro de 2026.
Fonte original: Bloomberg Law, Alex Ebert, 09.Out.2026.
Marcadores: deepfake, áudio falso, inteligência artificial, ética judicial, Flórida, Estados Unidos.