Julgamento de ex-policial em Boston usa dados do celular da vítima para reconstituir a última hora de Sandra Birchmore

A última testemunha da acusação no julgamento federal de Matthew Farwell, ex-policial de Stoughton, Massachusetts (Estados Unidos), acusado de matar Sandra Birchmore, de 23 anos, e de montar a cena para parecer suicídio, foi a perita em perícia digital Jessica Hyde, que em 28 de outubro de 2026 mostrou ao júri, minuto a minuto, o que o iPhone da vítima registrou na noite de 1º de fevereiro de 2021, quando a promotoria afirma que ela foi morta.
O caso
Birchmore, que estava grávida, foi encontrada morta no apartamento dela em Canton, a morte foi registrada primeiro como suicídio pelo instituto médico-legal do estado, que hoje a classifica como de causa indeterminada, e a investigação estadual nunca resultou em acusação, segundo o Boston Globe.
O FBI assumiu o caso em outubro de 2023, depois de denúncias de dois policiais e de um civil, e Farwell foi indiciado em agosto de 2024 por matar uma vítima ou testemunha, acusação federal que obriga a promotoria a provar que ele matou Birchmore para esconder provas de outros crimes, entre eles relações sexuais com ela quando ainda era menor de idade, quando ele era policial.
Farwell se declara inocente e, se condenado, pode pegar prisão perpétua, e a defesa sustenta que Birchmore tinha histórico de problemas de saúde mental e se matou depois de ele terminar o relacionamento.
A linha do tempo do celular
Segundo a NBC 10 (WJAR) e o Boston.com, às 21h07 Farwell perguntou por mensagem se podia passar no apartamento, Birchmore respondeu que sim, e às 21h13 ela mandou a última mensagem, dizendo que a porta estava aberta, quase no mesmo momento em que o celular foi bloqueado pela última vez.
Às 21h14, as câmeras de segurança registram Farwell entrando no prédio, e às 21h18 os metadados mostram o aplicativo da câmera aberto sem que o celular fosse desbloqueado, o que, segundo Hyde, indica que alguém interagiu com o aparelho, já que a câmera pode ser acessada com a tela bloqueada.
Às 21h40min22s o celular registrou os últimos passos, oito ao todo, numa distância de 6m, às 21h40min44s o botão liga/desliga foi apertado pela última vez, e às 21h43 as câmeras mostram Farwell saindo do prédio.
Hyde também mostrou ao júri o gráfico da bateria, que foi carregada pela última vez às 18h, teve uso constante até as 21h e depois caiu devagar até o celular desligar pouco antes da meia-noite de 3 de fevereiro, uma queda que, segundo ela, indica que o aparelho não estava sendo usado, e o celular continuou bloqueado até desligar.
A defesa contesta que Farwell ainda estivesse no apartamento quando os passos foram registrados, e Hyde também falou ao júri de duas buscas feitas no celular depois que, entre 7h45 e 7h55 daquela manhã, imagens do Facebook, entre elas a de uma fita roxa, ficaram em cache no aparelho, uma sobre o significado da fita roxa e outra sobre a cor da fita do suicídio, em que as palavras finais vieram do recurso de autocompletar.
Hyde, que já depôs nos julgamentos de Karen Read, contou ainda que tentou extrair dados de saúde de um Apple Watch que parece ser o que estava no corpo de Birchmore, mas não conseguiu obter contagem de passos nem frequência cardíaca.
O exame estadual e o exame federal
Em 15 de outubro de 2026, o analista forense digital Nicholas Guarino, que hoje trabalha como civil para a promotoria do condado de Norfolk e antes era policial estadual lotado nela, disse que em 9 de fevereiro de 2021, a pedido do investigador da polícia estadual John Fanning, fez a extração do iPhone 11 pessoal de Farwell, limitada às mensagens trocadas com Birchmore, e que, ao buscar o número dela, nada apareceu, e o celular foi devolvido a ele, segundo o Boston Globe.
A promotoria afirma que Farwell só autorizou a busca por mensagens com Birchmore e que, quando deu a autorização, já tinha apagado todas elas e dito isso aos investigadores, enquanto a defesa diz que ele permitiu uma busca mais ampla do que a descrita no julgamento.
No mesmo dia, segundo a NBC 10, Farwell pesquisou no celular funcional se um iMessage apagado podia ser recuperado pelo Cellebrite, programa de extração de dados usado pela polícia.
Guarino contou ainda que recebeu três aparelhos de Birchmore, um iPhone 12, um iPhone XS e um MacBook, que a ferramenta GrayKey tirou do iPhone 12 informações que incluíam a senha de uma conta de entrega de comida usada depois para abrir o notebook, e que as mensagens estavam também no MacBook porque o computador era sincronizado com o celular.
Eram tantas mensagens que os computadores do escritório travavam, e por isso Fanning, tenente da polícia estadual que chefiava a investigação, passou a lê-las direto no notebook de Birchmore, o que, segundo Guarino, alterou dados do aparelho, embora houvesse uma cópia da extração original, e a defesa anunciou que o perito dela vai dizer que essa revisão manual mudou os dados.
Do lado federal, o examinador forense digital do FBI Christopher Beckstrom disse em 16 de outubro de 2026 que o celular de Birchmore tinha cerca de 240 mil comunicações, perto de 10% delas com Farwell, e, segundo documentos da promotoria citados pelo Boston Globe, os investigadores federais acharam cerca de 40 mil mensagens entre os dois, muitas das quais a polícia estadual não tinha examinado.
A agente especial do FBI Heidi Kelsch, uma das principais investigadoras do caso, disse ao júri que leu “linha por linha centenas de milhares de mensagens” e que conferiu o que elas diziam em prontuários médicos e registros escolares, e a investigação ouviu cerca de 130 testemunhas.
Estado atual do julgamento
A acusação encerrou a apresentação de provas em 28 de outubro de 2026, depois de mais de três dezenas de testemunhas em quase três semanas, entre elas um perito independente que disse ao júri que Birchmore foi estrangulada, e a defesa pediu a absolvição sem que o caso fosse ao júri, enquanto a juíza-chefe Denise Casper decidiu que há provas suficientes de que o réu tornou Birchmore indisponível como testemunha.
Nessa decisão, a juíza citou entre os elementos de prova o fato de Farwell ser a última pessoa com Birchmore quando o celular dela parou de se mover, segundo a NBC Boston.
A defesa começou a chamar as próprias testemunhas no mesmo dia e previa ouvir em seguida a médica-legista-chefe do estado, Mindy Hull, enquanto a juíza pretende ter as alegações finais na quinta ou na sexta-feira da semana seguinte, e os advogados de Farwell ainda não disseram se ele vai depor.
Fonte original: Boston.com, Ross Cristantiello, 28.Out.2026.
Marcadores: perícia digital, metadados, celular, julgamento federal, Massachusetts, Estados Unidos.