Ataque hacker forçou degelo em refrigeradores de centenas de supermercados na França e provocou incêndios

Um ataque cibernético na noite de 11 para 12 de outubro de 2026 tomou o controle remoto dos sistemas de refrigeração de centenas de supermercados na França, elevou a temperatura de geladeiras e freezers a até 50°C, estragou alimentos e provocou incêndios em algumas lojas, segundo a Al Jazeera, e a promotoria de Paris confirmou que o ataque, de “grande escala”, atingiu “refrigeradores conectados em várias grandes redes de varejo alimentar” e causou “perdas de alimentos e incêndios”.
Como o ataque funcionou
Os corredores de refrigerados dos supermercados costumam ser comandados por painéis de controle que gerenciam todas as geladeiras e freezers da loja e podem ser acessados pela internet, o que permite às empresas de manutenção ajustar os equipamentos à distância, e foi por esse caminho que os invasores entraram e acionaram à distância o degelo forçado dos sistemas de refrigeração em muitas lojas, segundo a emissora francesa BFM TV, citada pela Al Jazeera.
Segundo o jornal Le Monde, citado pela SecurityWeek, os invasores alongaram os ciclos de degelo de uma hora para até oito horas, o que atrasou o disparo dos alarmes, e na rede Intermarché os equipamentos ficaram a 50°C durante seis horas e todos os alimentos foram descartados, de acordo com o grupo Les Mousquetaires, dono da rede.
A promotoria fala em incêndios entre os danos, mas as fontes consultadas não detalham em quantas lojas houve fogo nem como ele começou em cada caso.
O equipamento atingido
Uma fonte do gabinete do primeiro-ministro Sébastien Lecornu disse à Reuters que a Agência Nacional de Segurança dos Sistemas de Informação (ANSSI) identificou uma vulnerabilidade em software da empresa dinamarquesa Danfoss, que reconheceu incidentes na França com “um número limitado de sistemas de gestão de refrigeração” e disse que as unidades afetadas “rodavam firmware desatualizado”.
A Danfoss informou depois que a maioria dos aparelhos atingidos eram dos modelos AK-SM 800, sem suporte desde maio de 2021, e AK-SC 355, descontinuado em 2016, ambos em fim de vida e sem atualizações de segurança, e que alguns controladores atuais AK-SM 800A com firmware desatualizado também foram afetados, segundo a SecurityWeek.
Em 9 de agosto de 2026, a empresa de segurança Claroty tinha detalhado falhas no AK-SM 800A, já corrigidas, que permitiam contornar a autenticação e executar código nos aparelhos, e na convenção DEF CON, em agosto, a equipe Team82 da Claroty mostrou como usar um mecanismo oculto de autenticação por “código do dia” e uma falha de injeção de comandos para assumir o controle desses equipamentos, segundo o Organized Crime and Corruption Reporting Project (OCCRP).
A Danfoss tinha lançado em agosto de 2025 uma atualização de firmware contra essas falhas, mas a Claroty contou 2.765 controladores da marca expostos na internet, e até agora nem a Danfoss nem as autoridades francesas ligaram o ataque às falhas publicadas pela Claroty, nem foi divulgado o mecanismo exato da invasão.
O alerta oficial
O CERT-FR, centro de resposta a incidentes ligado à ANSSI, publicou em 12 de outubro de 2026 um alerta sobre “numerosos comprometimentos” dos controladores remotos de refrigeração Danfoss das séries AK-SM e AK-SC, ampliado no dia seguinte aos supervisores Copeland XWEB e Dixell XWEB, e lembrou que expor uma interface de gestão na internet contraria as boas práticas.
O alerta manda tirar da internet os aparelhos expostos em endereço IP público, conferir toda a configuração, em especial os horários de degelo, restabelecer o acesso só por VPN segura ou rede protegida, atualizar o firmware, trocar as senhas padrão e, nos aparelhos comprometidos, reiniciar ou restaurar a configuração de fábrica antes de reconfigurá-los.
O CERT-FR adverte que as campanhas de ataque provavelmente continuam e que, num equipamento em fim de vida mantido na internet, a restauração de fábrica apaga a presença do invasor, mas deixa o aparelho vulnerável e quase certamente sujeito a nova invasão.
Tamanho do estrago
Os números cresceram com o passar dos dias, e o ministro das Finanças, Roland Lescure, disse a parlamentares que cerca de 700 dos aproximadamente 10 mil supermercados da França foram atingidos, depois de estimativas iniciais de 300 a 350 lojas, segundo a SecurityWeek.
A rede Carrefour informou 80 lojas atingidas, a Monoprix cerca de 5% das suas aproximadamente 490 lojas e o grupo Les Mousquetaires, dono do Intermarché e do Netto, falou em 300 lojas ao OCCRP, enquanto o presidente da Coopérative U, Dominique Schelcher, disse que 80 das quase 2 mil lojas do grupo foram alvo e que, na maioria dos casos, a intervenção das equipes evitou a quebra da cadeia do frio.
O presidente do Intermarché, Thierry Cotillard, disse à BFM TV que o ataque representaria perdas de “dezenas de milhões de euros no país inteiro num único dia”, e dois supermercados da Alsácia relataram prejuízo de €270 mil.
O analista Félix Aimé, da empresa Sekoia, disse à Reuters que lojas na Espanha, em Portugal, na Polônia, na Alemanha e na Bélgica também foram afetadas, sem dar detalhes.
A investigação
A seção de crimes cibernéticos da promotoria de Paris abriu investigação e a entregou ao Escritório Anticibercrime (Office anti-cybercriminalité, OFAC), com o objetivo de “identificar as vítimas e estabelecer a ligação entre o incidente e os danos” relatados por elas, “especialmente a deterioração de alimentos e o início de incêndios”, segundo o OCCRP.
A falta de reivindicação por ativistas ou de pedido de resgate intrigou os investigadores, segundo uma fonte ouvida pela Reuters, e Ken Munro, da empresa britânica Pen Test Partners, disse que o caso é de “higiene cibernética básica”, porque as falhas eram conhecidas e as interfaces estavam abertas na internet.
A empresa de varredura Censys contou quase 3 mil painéis Danfoss expostos na internet em 11 de outubro de 2026, mais de 1.800 deles na França, e em 14 de outubro de 2026 o número francês tinha caído para 537, com versões corrigidas e não corrigidas sumindo no mesmo ritmo, sinal de que os operadores estavam desligando os aparelhos da rede em vez de atualizá-los.
O caso também abriu a discussão sobre responsabilidade, porque o grupo Les Mousquetaires afirmou que os sistemas de refrigeração eram administrados pela Danfoss e que cabe ao fornecedor apresentar queixa às autoridades, segundo a Bloomberg, citada pela SecurityWeek.
Fonte original: Al Jazeera, 13.Out.2026.
Marcadores: ataque cibernético, refrigeração comercial, sistemas conectados, incêndio, França.