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NEXO CAUSAL
Incêndios e explosões

Relatório da FSRI reconstrói os incêndios de Palisades e Eaton e mostra como o fogo passou da vegetação para as casas

Mapa da primeira hora do incêndio de Palisades, com pontos coloridos que indicam ligações ao 911, registros de rádio, fotos e vídeos e relatos usados para reconstruir o avanço do fogo
Figura: UL Research Institutes/FSRI, Southern California Fires Incident Analysis Report (CC BY-SA 4.0)

O Fire Safety Research Institute (FSRI), instituto de pesquisa em segurança contra incêndio do UL Research Institutes (ULRI), publicou em 2 de outubro de 2026 o “Southern California Fires Incident Analysis Report”, relatório de 724 páginas que analisa os incêndios de Palisades e Eaton, iniciados em 7 de janeiro de 2025 a menos de oito horas um do outro e a cerca de 30mi (48,28km) de distância, na região de Los Angeles.

Quem fez o relatório e o que ficou fora dele

O trabalho foi encomendado em fevereiro de 2025 pelo gabinete do governador da Califórnia, e este é o segundo e último volume, porque o primeiro, publicado em 20 de novembro de 2025, montou a linha do tempo dos fatos de 7 e 8 de janeiro, enquanto o novo compara esses fatos com as políticas, os procedimentos e as boas práticas em vigor, do início do incêndio de Palisades, às 10h30 de 7 de janeiro, até a manhã do dia seguinte.

O relatório deixa claro que a determinação da origem e da causa dos dois incêndios não faz parte do escopo contratado com o governo, e por isso só registra que, em 2 de outubro de 2025, o ATF (Bureau of Alcohol, Tobacco, Firearms and Explosives), agência federal americana, apresentou queixa criminal contra uma pessoa possivelmente ligada à causa do incêndio de Lachman, cuja declaração juramentada afirma que o incêndio de Palisades foi a retomada desse fogo de 1º de janeiro de 2025, que continuou queimando sem chama, sob o solo, nas raízes da vegetação densa, até o vento forte trazê-lo de volta à superfície.

Análise de sistemas e cruzamento de registros

A equipe usou como roteiro a National Cohesive Wildland Fire Management Strategy, a estratégia nacional americana de manejo de incêndios florestais, que divide o problema em três frentes (paisagens resilientes, comunidades adaptadas ao fogo e resposta segura e eficaz), e examinou cada componente, como clima, água, energia elétrica, comunicações, comando do incidente, combate e evacuação, comparando o que a norma ou o plano previa com o que as organizações de fato fizeram.

Participaram das entrevistas técnicas, somando as duas fases, 295 pessoas de 22 órgãos, os pesquisadores tiveram quase 200 conversas presenciais com moradores e receberam 260 respostas ao questionário próprio, e esse material foi cruzado com gravações de rádio, registros de despacho, dados de localização automática das viaturas (AVL), análise geoespacial e revisão das normas locais e estaduais.

Na parte dedicada às edificações, a equipe foi a campo em janeiro e fevereiro de 2025 e vistoriou mais de 880 construções, escolhidas a partir dos registros de inspeção de danos do CAL FIRE, o órgão de bombeiros do estado, com prioridade para os trechos em que o padrão passava de destruído para danificado ou intacto, e na maioria dos imóveis com acesso fez uma volta completa em torno da construção para registrar componentes danificados, caminhos de propagação e sinais de combate.

Os dados de campo foram lançados num formulário digital em plataforma de geoprocessamento, algumas distâncias entre vegetação e construção foram medidas no local para completar as medidas tiradas de imagem de satélite, e depois tudo foi reunido numa ferramenta de revisão que junta a vistoria com as inspeções do CAL FIRE, os dados de viaturas e de despacho, o rádio, os relatos e as fotos e vídeos.

O que os números mostram

Segundo a tabela de inspeções do CAL FIRE reproduzida no relatório, foram avaliadas 12.081 edificações na área de Palisades, das quais 6.845 classificadas como destruídas, e 18.299 na área de Eaton, com 9.403 destruídas, enquanto a equipe do ULRI fez vistorias complementares em 445 construções em Palisades e 435 em Eaton.

Os dois incêndios começaram em vegetação adulta a mais de 1.000ft (304,8m) das primeiras casas atingidas, e o vento levou brasas muito à frente da linha de fogo, de modo que em Palisades o fogo avançou mais de uma milha (1,61km) para o sul na primeira hora, e em Eaton os bombeiros relataram às 18h26 brasas atingindo casas a cerca de 1.000ft (304,8m) da área de origem e, às 18h33, uma grande chuva de brasas a mais de 2.000ft (609,6m) dela.

Dentro dos bairros, a ignição e a propagação entre edificações ocorreram pela combinação de brasas, calor radiante e contato direto com a chama, e o relatório aponta como caminhos pouco reconhecidos os combustíveis transitórios junto às casas, como veículos e latões de lixo e reciclagem, as unidades externas de ar-condicionado e, nos bairros densos, o desabamento de construções em chamas, que aproximou material queimando das vizinhas.

Entre os componentes das casas, as paredes externas foram as mais danificadas, mas só 13% das construções vistoriadas tiveram dano significativo em parede, por causa do uso frequente de parede incombustível, e as janelas foram o componente com mais registros de dano significativo, entendido como a abertura de uma passagem através da envoltória da edificação.

O relatório também mostra que a água e a energia pesaram no resultado, porque os reservatórios atendiam à exigência das normas de água e de incêndio para o alerta de tempo propício a incêndio (red flag) que havia sido previsto, mas não deram conta de um incêndio dessa escala, os hidrantes perderam pressão em vários pontos dos dois incêndios e o fechamento dos hidrômetros de imóveis destruídos ajudou a manter a pressão nas áreas vizinhas.

Foram confirmadas 32 mortes, 19 no incêndio de Eaton, 12 no de Palisades e uma no de Olivas, com idade mediana de 75 anos, e 25 delas (78%) ocorreram dentro de residências.

Os limites que os autores apontam

Os autores afirmam que a revisão encontrou obstáculos que limitaram a completude e, em algumas áreas, a neutralidade da análise, porque vários órgãos não entregaram as informações completas, alguns registros operacionais eram escassos e algumas instituições não deixaram seus servidores participar das entrevistas ou restringiram a participação a poucas pessoas.

Na vistoria das edificações houve outra limitação, porque em alguns casos os moradores ou empreiteiros já tinham consertado ou coberto o dano registrado antes pelos inspetores do CAL FIRE quando a equipe chegou ao imóvel.

O que os autores apontam para quem analisa dano

Uma das constatações do capítulo sobre edificações diz que as intervenções de bombeiros, policiais e moradores foram fator importante para reduzir o dano às edificações e que qualquer análise de dano, destruição e sobrevivência de edificações em conflagração urbana precisa considerar o efeito dessas intervenções.

Para o caso de Lachman, o relatório recomenda procedimentos padronizados depois do controle do fogo, com verificação da contenção, patrulha, rescaldo e documentação, porque a padronização pode reduzir a chance de um foco remanescente voltar a queimar e dar mais confiança à verificação de que o incêndio está de fato contido.

Fonte original: UL Research Institutes / Fire Safety Research Institute, Steve Kerber, Derek Alkonis, Daniel Gorham et al., 02.Out.2026.

Marcadores: incêndio florestal, interface urbano-florestal, propagação do fogo, brasas, Los Angeles, Estados Unidos.

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