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NEXO CAUSAL
Incêndios e explosões

Relatório do incêndio de Wang Fuk Court, em Hong Kong, aponta cigarro como causa mais provável e telas fora de norma na propagação

Torres de Wang Fuk Court em chamas à noite, com dezenas de caminhões de bombeiros e ambulâncias enfileirados na avenida em frente
Foto: Samson Ng (CC BY-SA 4.0), conforme Wikimedia Commons

O incêndio que matou 168 pessoas no conjunto residencial Wang Fuk Court, em Tai Po, Hong Kong, em 26 de novembro de 2025, foi causado mais provavelmente por um cigarro aceso que incendiou papéis num terraço da Wang Cheong House e espalhou-se tão rápido por causa de telas de proteção de andaimes sem retardante de chama, placas de espuma nas janelas e alarmes desligados, segundo o relatório do comitê independente presidido pelo juiz David Lok, divulgado em 29 de outubro de 2026, quando o chefe do Executivo, John Lee, pediu desculpas pela tragédia, segundo a Reuters, em texto publicado pelo The Irish Times.

O relatório tem mais de mil páginas em dois volumes, foi entregue ao governo em 22 de outubro de 2026 e saiu com trechos tarjados para não prejudicar os processos criminais em curso, e o comitê ouviu 80 testemunhas de fato e peritos em 30 dias de audiências e analisou mais de um milhão de arquivos, segundo o documento, publicado no site do comitê.

Onde e como o fogo começou

Os oito prédios de 31 andares do conjunto passavam por uma reforma de HK$336 milhões e estavam cobertos por andaimes de bambu e telas de proteção, e o fogo começou entre 14h30 e 14h40 no terraço entre os apartamentos 104 e 105 da Wang Cheong House (Bloco F), de onde passou rapidamente para outros seis prédios, segundo o resumo executivo do relatório.

O comitê concluiu que uma fonte incandescente, provavelmente um cigarro, incendiou materiais de papel no terraço e os fez queimar sem chama por algum tempo, e, embora não haja prova direta, reuniu farta prova circunstancial, como as duas bitucas e o resto queimado de uma terceira achados no entulho do terraço junto a caixas de papelão e papéis de pastilhas parcialmente queimados, a imagem de câmera de um operário de uniforme da construtora fumando na cobertura do prédio pouco antes de o fogo ser descoberto e o áudio em que operários no andaime atribuíam a fumaça a um cigarro mal apagado.

A hipótese de incêndio criminoso com acelerante foi descartada porque a química do Laboratório do Governo não achou resíduo de líquido inflamável nos destroços do terraço e o piso de concreto quase não foi afetado, sem o desplacamento que costuma aparecer quando o fogo é iniciado com acelerante.

Por que o fogo subiu tão rápido

Os peritos do comitê e da força-tarefa interdepartamental do governo concordaram que o fogo se desenvolveu de três modos, subindo depressa pelas reentrâncias da fachada, passando delas para dentro dos apartamentos e provocando ignições secundárias em materiais combustíveis presos à fachada, e o foco na reentrância da Wang Cheong House virou em minutos uma coluna de chamas, enquanto outras 11 reentrâncias foram tomadas pelo mesmo tipo de fogo vertical.

A geometria das reentrâncias funcionou como chaminé parcial, porque os gases quentes sobem e puxam ar pela base, o que acelera a combustão, e simulações mostraram que, se o fogo tivesse começado junto a uma parede plana, as chamas não teriam chegado ao topo do prédio, mas o relatório ressalta que a forma da fachada sozinha não explicaria o desastre sem o acúmulo de material combustível dentro dessas reentrâncias.

O fator decisivo foram as telas e lonas sem retardante de chama, porque nos ensaios em escala real feitos na Sichuan University of Science and Engineering as telas com retardante se apagaram sozinhas diante de um foco pequeno, enquanto as sem retardante continuaram queimando, pingaram gotas em chamas e levaram o fogo até o bambu, num teste que liberou 10.155,92MJ de energia, 27 vezes os 367,65MJ do ensaio com material retardante.

Um dos peritos, o professor Yuen, concluiu que, com telas retardantes e todas as outras condições iguais, o foco inicial provavelmente teria se apagado sozinho, e outro perito, o professor Usmani, preferiu dizer que ele “poderia” ter se apagado, enquanto as simulações computacionais de Yuen com um foco de 700kW chegaram a um pico de 35MW com telas retardantes e a mais de 700MW com as telas sem retardante.

Falhas da obra

O relatório aponta como principais culpadas a construtora Prestige Construction & Engineering, a consultora Will Power Architects e o inspetor registrado contratado pela consultora, e afirma que elas sabiam dos riscos de incêndio, ignoraram as reclamações dos moradores, usaram telas sem retardante, cobriram por muito tempo as janelas dos oito prédios com placas de espuma inflamável e abriram passagens nas escadas de emergência para facilitar o trabalho.

Segundo o comitê, as empresas também foram responsáveis por os sistemas de alarme e de hidrantes não estarem funcionando no dia do incêndio, porque a administradora do condomínio deixou um funcionário sem habilitação desligar a alimentação dos alarmes dos oito prédios, e por isso nenhum alarme soou para avisar os moradores.

Para contornar a fiscalização, as empresas usaram um inspetor registrado e uma empresa de instalações contra incêndio de fachada, só para entregar documentos e cumprir as exigências no papel, e a subcontratada dos andaimes, Gain Profit Shed Industry, participou da troca de telas sem retardante por telas retardantes na hora das vistorias, segundo o relatório.

Responsabilidade do Estado e estado atual

O comitê concluiu que nenhum órgão do governo assumiu de fato as questões de segurança contra incêndio e que as reclamações dos moradores “caíram num vácuo”, e atribuiu falhas à Independent Checking Unit (ICU), ao Departamento de Edificações, ao Corpo de Bombeiros e ao Departamento do Trabalho, com a parcela maior para a ICU, e um resumo da Reuters publicado pelo Insurance Journal registra que as autoridades confiavam em certificados em papel dos materiais provisórios, sem ensaio de laboratório nem amostragem no canteiro.

O relatório também descreve um “ecossistema corrupto” de combinação de propostas em licitações de manutenção predial, com participação de grupos ligados às tríades, e o governo anunciou que vai transformar em crime a combinação de propostas nessas obras e criar uma força-tarefa com a polícia, a comissão anticorrupção (ICAC) e a Comissão de Concorrência.

A secretária de Habitação, Winnie Ho, apresentou a renúncia, e Lee recomendou ao governo central chinês o afastamento dela do cargo, enquanto a Comissão do Serviço Público abriu uma investigação sobre a responsabilidade individual de servidores, e Prestige, Will Power e sete pessoas já respondem a pelo menos 25 acusações criminais, entre elas homicídio culposo, conspiração para fraude, lavagem de dinheiro e sonegação fiscal.

O comitê registrou ainda que, entre os 168 mortos, está o bombeiro Ho Wai Ho, que morreu durante o resgate, e que 79 pessoas ficaram feridas, e a versão integral do relatório só será divulgada depois que terminarem os processos criminais.

Fonte original: The Irish Times (agência Reuters), 29.Out.2026.

Marcadores: incêndio em edifício alto, origem e causa, andaimes, reforma predial, Hong Kong.

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