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NEXO CAUSAL
Perícia digital

Vazamento de 1,5 milhão de denúncias anônimas do Crime Stoppers leva mais de 40 programas e polícias do Canadá a suspender o serviço

Fonte: CBC News
Ilustração de uma caixa de correio de madeira quebrada numa rua com neve, com envelopes em branco espalhados pelo chão
Imagem ilustrativa gerada por IA

Mais de 1,5 milhão de denúncias feitas ao Crime Stoppers no Canadá ao longo de 25 anos ficaram expostas num ataque hacker à plataforma que guardava esses relatos, segundo investigação da emissora pública CBC publicada em 21 de outubro de 2026, e a reação em cadeia levou dezenas de programas locais e de polícias a suspender o serviço de denúncia anônima, que existe justamente para proteger quem tem medo de represália.

O Crime Stoppers é uma rede de organizações sem fins lucrativos que recebe denúncias sobre crimes por telefone, site e aplicativo, sem pedir o nome de quem denuncia, e repassa a informação à polícia quando julga necessário, trabalhando de forma independente das corporações.

Como os dados saíram

O ataque aconteceu em março de 2026 e atingiu a P3 Global Intel, plataforma de gestão de denúncias com sede no Texas e controlada pela empresa americana Navigate360, que é usada pelo Crime Stoppers e por outras organizações nos Estados Unidos e em outros países, segundo a Malwarebytes.

Um coletivo hacktivista chamado Internet Yiff Machine assumiu a invasão e disse que o objetivo era provar que a Navigate360 e a P3 mentiam sobre a segurança da plataforma, e a organização americana Distributed Denial of Secrets (DDoSecrets) disponibilizou o material a pesquisadores e jornalistas, entre eles os da CBC, segundo o The Record e o MobileSyrup.

A CBC diz ter tomado “amplas precauções” para manusear o material, com criptografia e ambientes de trabalho isolados e sem conexão, e os repórteres conseguiram falar com mais de uma dúzia de denunciantes a partir dos dados vazados, segundo o The Record.

O que as denúncias revelam

Mais de 850.000 das denúncias analisadas pela CBC tinham informação pessoal de denunciantes, de pessoas acusadas, de funcionários do Crime Stoppers e de policiais, em geral endereço e telefone, além de dezenas de milhares de e-mails pessoais e placas de veículos e de centenas de dados bancários ligados ao pagamento de recompensas, segundo o resumo do MobileSyrup.

Em mais de 4.300 casos o próprio denunciante escreveu o nome completo, apesar da orientação de não fazê-lo, e em centenas de casos os funcionários chegaram a anotar que o denunciante estava comprometido, por ter se identificado ou por outro motivo, sem que a informação fosse apagada do banco de dados, e a CBC concluiu que o Crime Stoppers e a empresa contratada falharam em proteger a identidade dos denunciantes e guardaram de forma indevida registros sensíveis de décadas.

O Toronto Crime Stoppers explicou que a prática é retirar os detalhes que identificam o denunciante antes de mandar a informação aos investigadores, mas que entre os dados roubados estavam as mensagens originais, ainda com esses detalhes, segundo a Global News.

O que o fornecedor informou e quando

Pelo relato do Toronto Crime Stoppers, a Navigate360 garantiu desde março que a P3 era segura, disse em abril que os dados de Toronto não tinham sido levados e só em junho admitiu que tinham, sem dizer o que fora exposto, até chegar ao número de 176.859 denúncias de Toronto feitas entre janeiro de 2022 e novembro de 2025, das quais 12.392 podem conter dados pessoais.

Entre setembro e outubro, a empresa entregou ao programa uma lista de 14.973 nomes encontrados no material roubado, sem dizer se eram de denunciantes, de suspeitos ou de ambos, e não entregou o texto das denúncias apesar dos pedidos feitos por advogados, de modo que o programa não consegue avaliar o risco de cada pessoa, segundo o The Record e a Global News.

A primeira confirmação pública do ataque pela Navigate360 veio só na sexta-feira, 23 de outubro de 2026, sete meses depois da invasão, e a empresa não respondeu aos pedidos de entrevista da CBC, segundo a emissora.

A suspensão em cadeia

O Toronto Crime Stoppers parou de receber denúncias na noite de 21 de outubro de 2026, horas depois da reportagem, e o presidente Sean Sportun disse que desde 1984 as pessoas procuravam o programa porque ele prometia anonimato e que, para algumas delas, essa promessa foi quebrada, e pediu desculpas.

Na segunda-feira, 26 de outubro de 2026, a contagem da CBC já mostrava pelo menos 11 programas parados e 24 unidades policiais com a parceria suspensa, e a emissora revelou um memorando interno de 22 de outubro em que o presidente da associação nacional, David J. Forster, orientava os programas locais a não dar entrevistas à CBC nem a nenhum outro veículo.

Em 30 de outubro de 2026, a Canadian Crime Stoppers Association, numa aparente mudança de posição, recomendou aos programas que aceitem denúncias só por telefone, pelo número 222-TIPS, sem usar a plataforma P3, e Forster disse em nota que a mudança “não desfaz a exposição das informações já levadas”.

Até essa data, mais de 40 programas e polícias de cinco províncias tinham suspendido as denúncias ou a parceria, ao menos 29 unidades policiais de Ontário, Manitoba, Nova Escócia e Colúmbia Britânica tinham se afastado do programa, e polícias como as de Calgary e de Charlottetown disseram que continuariam recebendo as denúncias, segundo a CBC.

Investigação da comissão de privacidade

A comissão federal de privacidade do Canadá abriu investigação sobre o vazamento, com foco na Navigate360 e nas salvaguardas de segurança que a empresa tinha na época do ataque, e o professor de criminologia Randy Lippert, da Universidade de Windsor, disse à CBC que é difícil imaginar o Crime Stoppers recuperando a confiança que tinha.

Fonte original: CBC News, 30.Out.2026.

Marcadores: vazamento de dados, denúncia anônima, Crime Stoppers, fornecedor terceirizado, Canadá.

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