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NEXO CAUSAL
Incêndios e explosões

Incêndio com aquecedor elétrico e a querosene: o que 543 acidentes analisados no Japão mostram sobre a distância segura de materiais combustíveis

Interior de um aquecedor a querosene aceso, visto através da grade de proteção, com o cilindro de queima incandescente em vermelho e chamas azuis na base
Foto: Syced (CC0), via Wikimedia Commons

O National Institute of Technology and Evaluation (NITE), instituto administrativo independente do Japão que recebe e analisa as notificações de acidentes com produtos de consumo, publicou em 29 de outubro de 2026 um levantamento dos acidentes com aquecedores domésticos notificados de 2021 a 2025, com tabelas por tipo de aparelho, por gravidade e por evento causador, quatro casos descritos e as distâncias mínimas entre o aparelho e os materiais combustíveis.

O universo dos dados

A base reúne os acidentes graves notificados por força da lei japonesa de segurança de produtos de consumo e os acidentes menos graves reunidos por um sistema de coleta de informações sobre acidentes, e cobre aquecedores elétricos (inclusive halógenos e de painel), termoventiladores elétricos, aquecedores e termoventiladores a querosene, aparelhos a gás, radiadores a óleo, tapetes térmicos e kotatsu, a mesa baixa com aquecedor embaixo.

Foram 543 acidentes em cinco anos, e os aparelhos a querosene, com 239 casos, e os elétricos, com 204, somam cerca de 80% do total, segundo o instituto.

Nos aparelhos elétricos, o número ficou praticamente estável, em torno de 40 acidentes por ano, e nos dois grupos os casos começam a subir em novembro e se concentram de dezembro a fevereiro.

Aparelhos elétricos: 178 incêndios em 204 acidentes

Dos 204 acidentes com aparelhos elétricos, 178 foram incêndios, 17 tiveram morte, somando 18 vítimas, e outros 120, sem vítimas, causaram dano que se estendeu a outros objetos ou ao imóvel, o que o NITE chama de dano ampliado, distinto do dano restrito ao próprio aparelho.

Entre os casos em que a causa foi identificada, ou em que um evento é a causa provável, o mais frequente foi o aquecimento anormal por fio interno rompido ou mau contato, com 36 casos, seguido do rompimento do cabo de alimentação por dobras repetidas, com 24, de acidentes com produtos sob recall cujo dono não tinha atendido ao chamado, com 20, do fogo iniciado por contato de material combustível ou pelo calor irradiado, com 16 casos e duas mortes, e do aquecimento anormal de placas de circuito e componentes eletrônicos, com 13.

O instituto classifica parte desses eventos como ligada ao produto, como o fio interno e a placa de circuito, e parte como ligada ao modo de uso, como o cabo dobrado repetidamente e o combustível encostado no aquecedor.

Aparelhos a querosene: mais mortes e mais vítimas idosas

Dos 239 acidentes com aparelhos a querosene, 233 foram incêndios e 45 tiveram morte, somando 51 vítimas, e, enquanto nos elétricos os acidentes se espalham por várias faixas de idade, nos aparelhos a querosene pesa mais a faixa de 70 anos ou mais, o que o NITE atribui, como fatores possíveis, à queda da capacidade de julgamento e das funções físicas com a idade e ao excesso de confiança de quem usa o aparelho há muitos anos.

O evento mais comum foi o querosene derramado por tampa do tanque esquecida aberta ou mal apertada, que pegou fogo, com 24 casos e cinco mortes, seguido do contato de combustível ou do calor irradiado, com 17 casos e uma morte, da gasolina colocada por engano no lugar do querosene, com 17, da combustão anormal ou ignição de depósitos por falta de limpeza, com 13, e de latas de aerossol que estouraram ou cujo gás pegou fogo perto do aparelho, com cinco.

Quatro casos descritos

Em janeiro de 2025, na província de Ehime, uma mulher na faixa dos 70 anos dormiu com o aquecedor elétrico ligado, o cobertor caiu sobre ele quando ela se virou na cama e a casa foi destruída pelo fogo, com a vítima queimada, e o NITE lembra que o manual proibia o uso durante o sono e pedia uma área livre de combustíveis em volta do aparelho.

Em outubro de 2025, em Kanagawa, o fogo começou perto do cabo de alimentação de um aquecedor elétrico, e a causa estimada foi o rompimento dos condutores no meio do cabo, com faísca, num ponto que não recebe esforço no uso normal, razão pela qual o instituto considerou o acidente não atribuível ao produto.

Em dezembro de 2024, em Tóquio, a tampa do tanque removível de um termoventilador a querosene se soltou quando o tanque foi recolocado depois do abastecimento, o combustível derramou e pegou fogo no aparelho, e o incêndio destruiu um imóvel e atingiu outros cinco, com uma mulher na faixa dos 80 anos ferida.

Em janeiro de 2024, em Chiba, o termoventilador foi abastecido com gasolina por engano, teve combustão anormal e o fogo destruiu a casa, embora o manual, o aparelho e o tanque trouxessem o aviso de proibição de gasolina.

Distância de combustíveis e calor radiante

O NITE explica que o combustível perto do aparelho pode pegar fogo por superaquecimento causado pelo calor radiante, o calor que um corpo quente transmite à distância por radiação infravermelha, ou por contato direto com as partes quentes, e o instituto divulgou imagens e vídeos de reconstituição em que roupas encostam num aquecedor elétrico e peças de roupa caem sobre um aquecedor a querosene e pegam fogo, com a ressalva de que as imagens são reconstituições sem relação com acidentes reais.

Como exemplo, o instituto cita a distância exigida pelas normas municipais japonesas de prevenção de incêndio para um aquecedor elétrico de radiação frontal com potência nominal de até 2kW, que é de pelo menos 100cm à frente e acima, 30cm dos lados e 4,5cm atrás, e ressalta que a distância varia conforme o modelo e deve ser conferida no manual.

Uma pesquisa do governo metropolitano de Tóquio de novembro de 2014, anexada ao levantamento, ouviu 520 usuários de aquecedor elétrico e mostrou que 63,1% deixavam objetos a menos de 1m à frente do aparelho, quando os manuais pedem em geral 1m ou mais.

Outros pontos técnicos do levantamento

O querosene velho, que sobrou da temporada anterior, se degrada com o tempo e pode causar combustão anormal e geração elevada de monóxido de carbono, às vezes sem mudança evidente de cor ou de cheiro, e a poeira acumulada na base de um aquecedor a querosene pode provocar o retorno de chama por baixo do aparelho e pegar fogo.

Os aparelhos a querosene passaram a ser “produtos especificados” pela lei de segurança de produtos de consumo em 2009, e os vendidos a partir de 2011 permitem confirmar pelo som, pela visão ou pelo tato que a tampa do tanque está fechada, e alguns modelos não deixam o combustível vazar mesmo com a tampa solta.

Fonte original: National Institute of Technology and Evaluation (NITE), 29.Out.2026.

Marcadores: aquecedores, incêndio residencial, origem e causa, calor radiante, NITE, Japão.

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