Engenheiro apontado pela autoridade de construção nega participação na obra que desabou em Eastleigh, no Quênia

O engenheiro estrutural Joseph Muturi Mugu, que a National Construction Authority (NCA), autoridade nacional de construção do Quênia, apontou como responsável pelo projeto estrutural do prédio que desabou em 23 de outubro de 2026 na 9th Street, no bairro de Eastleigh, em Nairóbi, divulgou em 26 de outubro de 2026 uma nota em que se desvincula da obra, segundo reportagem de Faith Mwangi no The Kenya Times.
O que diz o registro da NCA
Na nota divulgada no dia do colapso, a NCA informou que registrou a obra em 30 de julho de 2025 como empreendimento proposto no lote 36/II/40 da 9th Street, com o número de projeto 53128815710410, e listou a incorporadora 9th Street Plaza Limited, a construtora Stromax Holdings E.A Limited, o arquiteto Emmanuel Mwangi Maina, registro A2045, e o engenheiro Joseph Muturi Mugu, registro A2750, como engenheiro estrutural do projeto.
A Citizen Digital relatou que uma consulta ao portal da NCA na noite de sexta-feira, 23 de outubro de 2026, pelo número de registro do projeto, não trouxe nenhum dado da obra, que só apareceu no sábado, o que levantou dúvida sobre se o registro já estava completo antes ou se o portal foi atualizado depois do desabamento, e o engenheiro Raymond Karani, da direção da NCA e responsável pelos registros, também passou a ser questionado pela demora.
A nota do engenheiro
Na nota de 26 de outubro de 2026, Mugu escreveu que se manifestava em resposta ao comunicado da NCA de 23 de outubro de 2026 que o identificou como engenheiro estrutural do prédio e que se desvinculava “das obras de construção envolvidas naquele edifício”.
Ele informou que pediu, por meio de seus advogados, os registros do projeto à NCA e ao governo do condado de Nairóbi, para saber em que informação os órgãos se basearam para ligá-lo ao prédio, e defendeu uma investigação completa da construção e do colapso, dizendo-se disposto a colaborar com as autoridades.
Segundo a Citizen TV, o governador de Nairóbi, Johnson Sakaja, disse que os engenheiros costumam ser usados por construtoras e incorporadoras nas etapas iniciais de aprovação, para fins de documentação, mas não avisam a prefeitura nem a NCA quando deixam de responder pela obra, enquanto Harrison Keter, apresentado pela Citizen Digital como presidente da Institution of Engineers of Kenya, respondeu que cabe ao condado aprovar projetos, processos e materiais e fazer várias inspeções para garantir que a obra cumpra o aprovado.
Projeto recusado e obra sem licenças
Segundo a Citizen Digital, a prefeitura recusou os projetos de arquitetura apresentados em novembro de 2024 pelo arquiteto Emmanuel Mwangi Maina, e mesmo assim a construção teria começado em junho de 2025 e seguido até 2026.
A National Environment Management Authority (NEMA), órgão ambiental do país, escreveu à incorporadora em 6 de janeiro de 2026 pedindo desenhos de arquitetura legíveis e com todas as dimensões, deu 60 dias para a reapresentação e, como os desenhos não foram entregues, considerou o projeto irregular, sem licença de avaliação de impacto ambiental, segundo o diretor-geral Mamo B Mamo.
Um relatório citado pela Citizen TV sobre o lote apontou que os projetos de arquitetura previam lojas no subsolo, não tinham estacionamento no terreno, não traziam a autorização de altura da Kenya Civil Aviation Authority e não respeitavam o recuo de três metros no subsolo e no primeiro pavimento, e o mesmo relatório colocou na lista negra o proprietário registrado, o arquiteto, o engenheiro e a construtora.
A emissora apurou ainda que, em 17 de junho de 2026, fiscais do condado prenderam 14 pessoas ligadas à obra por suposta infração à lei de planejamento urbano e que dez delas foram soltas horas depois, mediante fiança de KES 50.000 cada, sem acusação formal, enquanto o proprietário registrado, o arquiteto, o engenheiro e a construtora não estavam entre os presos.
O deputado Babu Owino divulgou um documento que daria a obra como aprovada em 13 de fevereiro de 2024, com a condição de apresentar detalhes estruturais das fundações, vigas, pilares e treliças e de obter o habite-se antes da ocupação, mas Sakaja disse em 25 de outubro de 2026 que o documento é falso e que a prefeitura só aprovou, em 17 de outubro de 2024, a mudança de uso do terreno.
Ministério Público manda investigar
Em comunicado de 26 de outubro de 2026, o Office of the Director of Public Prosecutions (ODPP), o Ministério Público do Quênia, determinou que a Diretoria de Investigação Criminal apure se atos ou omissões de servidores do condado, da incorporadora, das construtoras ou de outros profissionais que atuaram no planejamento, na aprovação, na supervisão e na construção do prédio contribuíram para o colapso, e prometeu processar os responsáveis quando houver prova suficiente de culpa criminal, “independentemente de cargo ou posição”.
No mesmo comunicado, o ODPP afirmou que, até aquela data, o governo do condado de Nairóbi nunca lhe enviou inquérito sobre a construção do prédio, enquanto Sakaja, segundo o The Kenya Times, havia citado uma notificação de fiscalização do condado e dito que um investigador do condado encaminhou ao Ministério Público um processo por supostas infrações à lei de planejamento.
O que é o colapso em panqueca
O engenheiro estrutural Robert Otieno Ogallo disse à Citizen TV que as equipes conseguiram identificar visualmente que o prédio sofreu um colapso em panqueca (pancake collapse), que ele traduziu para o suaíli como “kuanguka kichapati”, ou seja, cair como um chapati.
Na explicação publicada pela Citizen Digital, o colapso em panqueca é um tipo de colapso progressivo que começa quando um elemento estrutural crítico, como um pilar principal, uma parede portante ou a ligação de uma laje, falha num pavimento por sobrecarga, defeito estrutural, material de má qualidade ou impacto externo, e o pavimento de cima, sem apoio, cai sobre o de baixo.
O peso do pavimento em queda, somado ao impacto, supera a capacidade do pavimento inferior, que também cede, e o processo se repete em cascata até as lajes ficarem empilhadas umas sobre as outras, com pouquíssimo espaço livre entre elas.
Por isso esse tipo de colapso é o mais difícil para o resgate, porque, ao contrário do colapso em “V” (V-shape) ou do colapso com a laje apoiada de um lado (lean-to), que costumam formar bolsões triangulares onde vítimas podem sobreviver, ele quase não deixa vazios, e as equipes de busca e salvamento só avançam nas lajes comprimidas com equipamento de corte pesado, guindastes e escoramento para impedir novos deslocamentos.
Fonte original: The Kenya Times, Faith Mwangi, 26.Out.2026.
Marcadores: responsabilidade técnica, colapso progressivo, fiscalização de obras, desabamento, Quênia.