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NEXO CAUSAL
Normas e padrões

Ensaio de fogo fora da configuração ensaiada: o alerta da CROSS-UK sobre avaliações de engenharia

Ilustração de uma parede de ensaio presa numa moldura de aço diante da boca de um forno, com chamas nas bordas
Imagem ilustrativa gerada por IA

A CROSS-UK (Collaborative Reporting for Safer Structures), sistema britânico de relatos confidenciais de segurança de estruturas e edificações, publicou em 22 de outubro de 2026 o documento técnico “Fire test evidence and product assurance”, sobre o uso de produtos de construção em configurações para as quais não existe ensaio de fogo aplicável ou em que o ensaio disponível não corresponde ao uso pretendido.

O texto parte de vários relatos recebidos pela organização e é dirigido a engenheiros de incêndio, projetistas, construtoras, fiscalização, fabricantes, proprietários e seguradoras.

O limite de todo ensaio

O documento lembra que os métodos de ensaio padronizados permitem comparar desempenho em condições definidas e são a base do sistema regulatório, mas que o ensaio é feito em condições controladas e não cobre a variedade de geometrias, interfaces, fixações, métodos de instalação e qualidade de execução que aparece na obra real.

Segundo a CROSS, revisões do governo e do setor mostraram que uma parcela significativa dos produtos de construção não está sujeita a normas regulatórias abrangentes nem a regimes de ensaio consistentes, e por isso é comum que um produto seja especificado e instalado numa configuração sem nenhuma prova de ensaio diretamente aplicável.

A norma britânica BS 6336:1998, guia para o desenvolvimento de ensaios de fogo, já reconhecia que o resultado de um ensaio não deve ser aplicado sem considerar as condições em que foi obtido, porque o ensaio isola variáveis para dar resultado repetível e não reproduz a complexidade de um edifício real.

Dois relatos que mostram o problema

No relato 1030, sobre estrutura de perfis leves de aço formados a frio (light gauge steel framing), alguém sugeriu numa reunião de projeto trocar a marca da placa de gesso de um sistema ensaiado, com o argumento de que as placas do mercado são “praticamente iguais”, e o autor do relato discordou porque não havia dados de ensaio que sustentassem a troca.

Nesse tipo de construção, a resistência ao fogo vem do sistema completo, em que as camadas de placas protegem o perfil de aço que sustenta o prédio, e o autor do relato observou que paredes sem função de compartimentação, como a que separa dois quartos de um apartamento, também precisam resistir ao fogo para proteger a estrutura, o que muitas vezes passa despercebido.

Os ensaios citados para esses conjuntos são os de forno das normas BS EN 1364-1, para paredes sem função estrutural, e BS EN 1365-1 e BS EN 1365-2, para paredes e pisos estruturais, e a orientação do relato é que mudanças de dimensão, de carga ou de componentes, como placas, fixações e acabamentos, não sejam feitas sem uma avaliação documentada.

No relato 1242, um profissional foi chamado para avaliar uma grade de redução de ruído formada por placas verticais penduradas no teto de um escritório aberto, e o fabricante apresentou a classificação B da norma de reação ao fogo BS EN 13501, obtida com o ensaio de objeto isolado em combustão (SBI, single burning item) da BS EN 13823.

Os dados mostravam que a placa tinha sido ensaiada na montagem padrão, como um único painel grande fixado sobre substrato sólido e com fogo em uma só face, e o profissional concluiu que o resultado só valia para uso como revestimento de parede ou teto e não endossou o produto, e o cliente acabou procurando outro fornecedor.

O painel de especialistas confirmou que o ensaio SBI expõe o material de um lado só e que não existe ensaio comparável para esse tipo de montagem aberta, e recomendou uma avaliação de risco que considere, entre outros pontos, a altura e a extensão da grade, a rapidez com que as fixações cederiam no fogo, as rotas de fuga e o sistema de alarme.

Avaliação de engenharia no lugar do ensaio

A avaliação em apoio a resultados de ensaio, antes chamada de “avaliação em substituição ao ensaio” ou “estudo de escritório” (desktop study), é a prática usada quando não há ensaio para a configuração específica, e o documento registra que depois do incêndio da Grenfell Tower ela passou a ser examinada com mais rigor, por dúvidas sobre transparência, base de prova e competência de quem a faz.

A CROSS afirma que a avaliação é parte necessária do sistema de garantia, sobretudo em edifícios existentes e históricos e em detalhes construtivos únicos, em que a montagem real não pode ser reproduzida num ensaio padronizado, e que a questão não é se ela deve ser usada, mas como é feita, documentada e aceita.

Onde houver método de cálculo estrutural em situação de incêndio, norma de produto ou regra de aplicação estendida, ele deve ser seguido, e o documento cita a BS EN 15725:2023, que trata das normas e relatórios de aplicação estendida (EXAP), com regras, cálculos e julgamento especializado para estender resultados de ensaio dentro de limites definidos.

Para avaliações fora desses casos, o texto cita o guia de 2021 da Passive Fire Protection Federation sobre avaliações técnicas baseadas em ensaios de fogo, que está sendo transformado na norma britânica BS 8623, e ressalva que esses métodos pressupõem um conjunto aplicável de ensaios padronizados e não servem para dar garantia a produto que não tem norma de produto nem de ensaio.

Quando sobra só a declaração

Nos casos em que não há nem ensaio aplicável nem avaliação estruturada, os relatos mostram desempenho sustentado por declarações gerais do fabricante ou do fornecedor, e a CROSS observa que essas formas de garantia nem sempre dão confiança equivalente e que a fronteira entre avaliação baseada em prova e afirmação sem suporte nem sempre é clara na prática.

O documento atribui o problema também a fatores do sistema, como pressão comercial e de prazo, divisão das responsabilidades de projeto e execução, falta de clareza sobre quem responde por quê e competência desigual sobre métodos de ensaio, e lembra que onde o desempenho é presumido e não demonstrado o risco é maior na compartimentação e na proteção passiva de passagens, que dependem da integridade das interfaces.

A CROSS também aponta o risco contrário, o de tratar a falta de ensaio exato para cada detalhe como prova de desempenho inadequado, porque não é possível ensaiar todas as variações da construção, e por isso defende a avaliação proporcional desde que escopo, raciocínio e limitações estejam claros.

O que caracteriza uma avaliação confiável

As avaliações que dão mais confiança, segundo o documento, têm escopo claro, identificam o ensaio usado e quanto a aplicação proposta se afasta dele, mostram de forma transparente como as conclusões saem da prova, tratam das diferenças de geometria, materiais, interfaces, fixações e instalação, declaram premissas, limitações e incertezas e usam linguagem cautelosa, proporcional à confiança possível.

A organização acrescenta que a competência exigida varia com a complexidade e as consequências da avaliação e que também precisam de competência quem especifica, aceita e aplica as conclusões, o que inclui projetistas, construtoras e fiscalização.

Na conclusão, a CROSS afirma que ensaio e avaliação são partes necessárias da segurança contra incêndio, mas que a eficácia de ambos depende de suas limitações serem entendidas e de as conclusões estarem apoiadas em prova clara, com métodos reconhecidos, premissas declaradas, responsabilidades definidas e revisão adequada.

Fonte original: CROSS-UK (Collaborative Reporting for Safer Structures), 22.Out.2026.

Marcadores: ensaio de fogo, resistência ao fogo, avaliação de engenharia, compartimentação, Reino Unido.

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