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NEXO CAUSAL
Prova pericial no tribunal

Juiz federal anula condenação de 1985 baseada em marca de mordida, e o Alabama tenta manter o réu preso

Ilustração de moldes de arcada dentária em gesso sobre uma mesa de laboratório, ao lado de uma lupa
Imagem ilustrativa gerada por IA

O juiz federal R. Austin Huffaker Jr. anulou em 21 de setembro de 2026 a condenação de Charles McCrory pelo assassinato da mulher, Julie Bonds McCrory, em 1985, em Andalusia, no Alabama (Estados Unidos), ao concluir que a análise de marcas de mordida que sustentou a acusação é grosseiramente não confiável e não tem apoio das entidades científicas da área, segundo reportagem de Liliana Segura e Jordan Smith publicada pelo The Intercept em 28 de outubro de 2026.

A prova do julgamento

Julie McCrory foi encontrada morta em casa em 31 de maio de 1985, o filho do casal, então com 3 anos, foi achado ileso, e a polícia apontou logo Charles McCrory, então com 26 anos e separado da mulher, como único suspeito, sem nenhuma prova física que o ligasse ao crime.

Segundo o Intercept, a investigação ignorou pistas, como duas janelas abertas no quarto da vítima que não foram periciadas e um outro possível suspeito, e a acusação se apoiou numa única prova física: um par de pequenas marcas na parte de trás do braço direito da vítima, que a promotoria disse ser uma mordida feita pelos dentes de McCrory.

O dentista forense Richard Souviron, conhecido por ter testemunhado no julgamento do serial killer Ted Bundy, foi quem fez a ligação, e embora de início tenha dito que não podia relacionar as marcas aos dentes de McCrory com certeza, no julgamento afirmou sem ressalvas que elas correspondiam.

O New York Post, com base no AL.com, acrescenta que Souviron nunca examinou o corpo e trabalhou só com fotos.

Por que a técnica caiu

A análise de marcas de mordida parte de duas premissas, a de que a forma e a disposição dos dentes de cada pessoa são únicas e a de que a pele registra essa forma com fidelidade, e, segundo o Intercept, as pesquisas mostram o contrário, porque a arcada dentária não é única e a pele, por ser maleável, registra mal qualquer lesão.

Em 2019, Souviron assinou uma declaração em que diz não acreditar mais que o seu testemunho de comparação individual de marcas de dentes no caso tenha sido confiável ou adequado, nem que exista base científica válida para ligar a lesão da vítima a uma pessoa específica.

Numa audiência de 2021, a promotoria passou a chamar a prova de “marcas de dentes”, como se fosse disciplina diferente, e sustentou que o júri poderia comparar sozinho as fotos e os moldes dentários de McCrory, tese aceita pelo juiz estadual Lex Short e mantida pelo tribunal de apelações criminais do Alabama.

Huffaker rejeitou os dois argumentos: escreveu que a identificação por mordida se baseia justamente na análise das marcas de cada dente e, numa nota, que se um perito não pode depor sobre a técnica por ela não ter base científica, o júri também não poderia ter considerado a prova.

Prazo e recurso

Pela decisão, o estado tem seis meses (180 dias, segundo o New York Post) para marcar novo julgamento, ou McCrory deve ser solto, e o juiz escreveu que, sem a mordida, as demais provas contra ele eram frágeis e que o uso dela resultou num julgamento fundamentalmente injusto.

Mais de um mês depois, McCrory continua preso: os advogados dele, Mark Loudon-Brown, do Southern Center for Human Rights, e Chris Fabricant, do Innocence Project, pediram que ele aguarde em liberdade, e a procuradoria-geral do Alabama pediu ao juiz que reconsidere a anulação.

Segundo o New York Post, em 2020 o estado ofereceu a soltura em troca de uma confissão, que McCrory recusou, e, segundo o Intercept, em 2023 a junta de livramento condicional do Alabama negou a liberdade a ele.

Fonte original: The Intercept, Liliana Segura e Jordan Smith, 28.Out.2026.

Marcadores: marca de mordida, odontologia forense, erro judiciário, ciência sem base, Alabama.

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