Análise de manchas de sangue encomendada pelo Guardian apoia tese de suicídio no caso White House Farm, que condenou Jeremy Bamber

Uma análise das manchas de sangue nas fotos do local do crime, encomendada pelo jornal britânico The Guardian à bióloga forense Sue Carney-Gannon, concluiu que o padrão de sangue no corpo e na roupa de Sheila Caffell é explicado se ela tirou a própria vida, o que contraria a tese da acusação que levou à condenação de Jeremy Bamber pelos cinco homicídios da White House Farm, segundo reportagem de Simon Hattenstone publicada em 23 de outubro de 2026.
O caso
Em 7 de agosto de 1985, cinco pessoas foram encontradas mortas a tiros de rifle na White House Farm, em Tolleshunt D’Arcy, no condado de Essex, na Inglaterra: Sheila Caffell, de 28 anos, os dois filhos gêmeos dela, de seis anos, e os pais adotivos, June e Nevill Bamber.
O caso foi tratado no início como homicídio seguido de suicídio cometido por Caffell, que tinha diagnóstico de transtorno esquizoafetivo, mas um mês depois o irmão adotivo, Jeremy Bamber, então com 24 anos, foi preso, e em 28 de outubro de 1986 foi condenado pelas cinco mortes no Chelmsford Crown Court por maioria de 10 a 2 do júri.
Bamber está preso há 41 anos e sempre negou os crimes, e na época o juiz disse aos jurados que o autor só podia ser Sheila ou Jeremy.
Local contaminado e fotos tardias
A reportagem lembra que o local foi muito contaminado: pelo menos 43 policiais passaram pela casa, roupas e roupas de cama foram destruídas, corpos e armas foram deslocados e o imóvel ficou 32 dias sem ser isolado.
O registro mais confiável é a série de fotos que o fotógrafo da polícia começou a tirar duas horas e meia depois da entrada dos primeiros policiais, e só em 2011, depois de décadas de disputa judicial, a polícia de Essex entregou 406 negativos à Criminal Cases Review Commission (CCRC), que se recusou a pagar a revelação, feita por apoiadores de Bamber por £ 2.295.
O que a perita concluiu
Carney-Gannon, que já atuou como perita em mais de 2.000 casos, examinou as fotos do quarto principal, e o relatório dela passou por revisão de pares.
Na opinião da perita, o sangue na camisola e no braço direito de Caffell indica que ela estava sentada quando o tiro entrou sob o queixo, com o sangue escorrendo pela frente da roupa e respingando no antebraço direito e depois mudando de direção, pela gravidade, quando o corpo e os braços caíram para trás.
Ela afirma que a hipótese da acusação, de que Bamber atirou na irmã deitada no chão, não explica bem o desvio do sangue para o lado direito, porque nesse caso o corpo não teria caído depois do tiro.
A perita não descarta que Bamber tenha atirado com a irmã em pé, mas diz que esse cenário talvez não explique o sangue no antebraço se os braços dela estivessem ao lado do corpo, e ressalva que a análise das manchas não permite dizer quem atirou nas outras vítimas.
O patologista Peter Vanezis, testemunha da própria acusação no julgamento, já tinha dito que Caffell estava sentada nos dois ferimentos e que o exame dele não revelou nada que contradissesse a hipótese de suicídio.
Tiros que erraram o alvo
A perita também identificou na cama dois furos de bala e um estojo de cartucho, que para ela provavelmente vêm de tiros que não atingiram ninguém, e isso contraria o perito em balística Malcolm Fletcher, que no julgamento falou em 25 acertos em 25 disparos, número usado pela acusação para sustentar que só um atirador experiente como Bamber poderia ser o autor.
O padrão de gotas no carpete e nos pés de June Bamber indica, segundo a perita, que ela se movimentou pelo quarto depois de ferida.
Silenciador e próximos passos
As conclusões reforçam outra perícia encomendada pelo Guardian neste ano ao médico-legista Jason Payne-James, para quem não foi usado silenciador e os dois tiros em Caffell foram encostados ou quase encostados, um ponto central porque o juiz disse ao júri que, se o uso do silenciador estivesse provado, Bamber era culpado.
O material será entregue à CCRC, órgão que pode devolver casos ao tribunal de apelação e que levou quatro anos para analisar quatro dos dez pontos do último pedido de Bamber, rejeitando todos.
A polícia de Essex afirmou que todos os recursos e revisões feitos até hoje concluíram que Bamber matou a família, enquanto a campanha pela inocência dele disse que o relatório confirma o que ele sempre afirmou, e o advogado Mark Newby, citado pelo The Justice Gap, chamou o trabalho de mais um relatório independente que levanta dúvidas sérias sobre a condenação.
Fonte original: The Guardian, Simon Hattenstone, 23.Out.2026.
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