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NEXO CAUSAL
Reconstrução de acidentes de trânsito

Caixa-preta da balsa Filo Jet, que naufragou em Kyrenia, foi desligada dois dias antes do acidente

Ilustração de uma embarcação de passageiros iluminada à noite, perto da costa, sob céu nublado
Imagem ilustrativa gerada por IA

A caixa-preta da balsa Filo Jet, que afundou em 30 de agosto de 2026 ao sair de Kyrenia, no norte de Chipre, estava desligada desde dois dias antes do naufrágio, e por isso não existe nenhuma gravação do dia do acidente, segundo o que a polícia informou ao tribunal distrital de Kyrenia em 9 de outubro de 2026, numa das audiências do processo contra as nove pessoas presas depois do desastre.

O naufrágio

A Filo Jet, balsa de passageiros da empresa Filo Denizcilik, saiu do porto novo de Kyrenia pouco depois do meio-dia de domingo, 30 de agosto de 2026, com destino a Taşucu, na província de Mersin, no sul da Turquia, levando 259 passageiros e oito tripulantes, e afundou pouco depois da partida.

Morreram 27 pessoas, e uma pessoa continua desaparecida, segundo o Cyprus Mail e o Hürriyet Daily News, enquanto nove pessoas estão presas e são investigadas por causar mortes por negligência: o comandante, Mustafa Öz, sete tripulantes e um diretor da Filo Denizcilik.

No dia seguinte ao acidente, um representante da polícia disse ao tribunal que o número de passageiros não passava da capacidade da embarcação, que ela era tecnicamente capaz de navegar com ondas de até 3m e que o serviço meteorológico do norte de Chipre tinha considerado as condições adequadas para a travessia.

O mesmo representante informou que o barco tinha sofrido um acidente doze anos antes, foi reparado na Turquia e comprado pela Filo Denizcilik em 2024, e que, em junho, a sociedade classificadora Türk Loydu, de Istambul, o tinha declarado em condições de navegar.

A caixa-preta desligada

A caixa-preta da Filo Jet é o registrador de dados de viagem (voyage data recorder, VDR), e é o conteúdo desse equipamento que a polícia vem apresentando ao tribunal a cada audiência.

Segundo o jornal Yenidüzen, citado pelo Cyprus Mail, o último registro disponível no aparelho é o som de passos gravado às 20h39 de 28 de agosto, e nada foi gravado em 30 de agosto.

O representante da polícia disse ao tribunal que o equipamento “é responsabilidade do comandante” e que o departamento de portos do norte de Chipre “não foi informado” da decisão de desligá-lo, como a lei exige.

As gravações anteriores, de acordo com o site Gündem Kıbrıs, também citado pelo Cyprus Mail, trazem conversas sobre falhas técnicas, uma em que alguém diz que “este barco não vai aguentar a temporada” e outras sobre a entrada de água no barco em viagens anteriores, com participação do comandante Öz.

O que mais as gravações mostram

Na audiência de 16 de outubro de 2026, a polícia relatou ao tribunal conversas sobre falhas no gerador de energia, no escapamento e no leme, e numa delas o imediato, que também está preso, diz que “o barco precisa de uma revisão completa”.

Sobre o leme, a polícia citou uma conversa em que alguém conta que, numa viagem anterior, o barco “chegou muito perto de outra embarcação” por causa da falha, e outra gravação menciona que “outro comandante” bateu com o navio em Yumurtalık, na província turca de Adana, um comandante que, segundo a polícia, já foi identificado.

Nessa mesma audiência, a polícia informou que peças recuperadas do barco estão sendo examinadas por engenheiros navais e que foi aberta uma investigação sobre um mecânico que, acredita-se, sabia de todas as falhas, embora ele ainda não seja suspeito.

Em 23 de outubro de 2026, o Hürriyet Daily News relatou que os tripulantes discutiam problemas no sistema de direção, no radar, nas câmeras e no casco de boreste, reclamavam do pouco investimento da operadora no navio e temiam que as falhas fizessem o barco afundar, e que o comandante seguiu viagem apesar de a tripulação falar de água entrando na embarcação.

Numa das gravações, segundo o mesmo jornal, o segundo maquinista diz que “somos a única coisa inteira neste navio, todo o resto está meio quebrado”.

Também em 23 de outubro de 2026 foi dito no tribunal que, numa viagem anterior, passageiros entraram na cabine do comandante e pediram que ele voltasse ao porto, assustados com o estado do barco.

A trinca no casco e a licença do comandante

Em setembro, o tribunal ouviu que uma trinca apareceu no lado esquerdo da embarcação quase dois meses antes do naufrágio, e fotos recuperadas do celular do imediato mostram que o reparo foi feito em 17 de junho pelo próprio comandante e pela tripulação, num porto de Chipre, sem aviso às autoridades do norte da ilha, embora a empresa e o comandante fossem obrigados a avisar.

O reparo aconteceu apenas 15 dias depois da certificação da Türk Loydu, e, embora o certificado diga que vale até 2029, a base de dados da classificadora na internet o mostra como “inválido”, sem que se saiba se isso foi registrado antes ou depois do naufrágio.

O tribunal também ouviu que Öz, cuja licença turca de comandante tinha perdido a validade depois de dez anos sem exercer a função, obteve uma licença hondurenha por US$ 3.500, por meio de contatos na Grécia e usando o número da licença turca antiga.

Estado atual da investigação

Até 23 de outubro de 2026, a polícia tinha examinado 32 dias de gravações do registrador, e o Cyprus Mail informou que faltavam 34, enquanto o Hürriyet Daily News fala em 68 dias gravados no total.

Uma equipe de peritos da Turquia e um especialista de uma universidade turca vão participar da investigação, um engenheiro naval já examinou partes dos destroços trazidas à terra ou arrastadas pelo mar, e os nove presos passaram por avaliação psiquiátrica.

A cada audiência o tribunal tem prorrogado a prisão dos nove por mais sete dias, e, segundo o Hürriyet Daily News, a polícia ampliou para seis o número de pessoas procuradas por suspeita de responsabilidade no desastre.

As famílias das vítimas têm se reunido diante do tribunal de Kyrenia nos dias de audiência e pedem que, além do comandante e da tripulação, sejam levados à Justiça os que autorizaram a viagem, outros dirigentes da Filo Denizcilik e representantes da autoridade portuária.

Fonte original: Cyprus Mail, 09.Out.2026.

Marcadores: naufrágio, caixa-preta, registrador de dados de viagem, Filo Jet, Chipre, Turquia.

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