Fentanil com xilazina, medetomidina e BTMPS: estudo do NIST com 4.563 amostras mostra como os adulterantes mudam nos EUA

O National Institute of Standards and Technology (NIST), órgão de metrologia do governo dos Estados Unidos, divulgou em 8 de outubro de 2026 um estudo do químico Edward Sisco e de colegas que acompanha, ao longo de dois anos e meio e em várias regiões do país, as substâncias misturadas ao fentanil fabricado ilegalmente, e o artigo “Trends in Fentanyl Adulteration From Rapid Drug Analysis and Research (RaDAR) Drug Checking Samples, January 2024 to June 2026” saiu on-line um dia antes na revista Drug Testing and Analysis.
Os autores são Edward Sisco, Elise M. Pyfrom, Meghan G. Appley, Elizabeth L. Robinson, Katya A. Beltran e Sarah A. Shuda, do NIST, em Gaithersburg, Maryland, e o texto integral é de acesso por assinatura, de modo que o que se segue vem do comunicado do NIST, do resumo indexado na base Europe PMC e da página do programa RaDAR.
O problema: um mercado que muda de composição
Segundo o NIST, as autoridades de saúde pública e de segurança não têm informação detalhada e rápida sobre os anestésicos, produtos químicos industriais, sedativos veterinários e outros adulterantes que os fornecedores misturam cada vez mais ao fentanil ilegal, e a maior parte desses compostos não é opioide, o que exige tratamento médico adicional para conter os efeitos.
Um exemplo citado é a xilazina, anestésico de uso veterinário que provoca feridas nas pernas ou nos braços tão graves que, sem tratamento, podem levar à amputação.
O programa RaDAR e a amostragem
O estudo faz parte do programa Rapid Drug Analysis and Research (RaDAR), da Divisão de Ciência de Medição de Materiais do NIST, que trabalha com órgãos de saúde pública, polícias, laboratórios de ciência forense, institutos médico-legais e alfândega dos Estados Unidos para registrar depressa a composição química das drogas ilícitas em circulação.
Pela descrição do programa, os parceiros recolhem amostras de resíduos de droga e as enviam ao NIST, onde são extraídas e analisadas por espectrometria de massas de ionização ambiente para triagem de drogas, adulterantes e agentes de corte, e o resultado volta ao parceiro em até 48 horas.
Uma parte das amostras passa por análise mais completa, com técnicas de espectrometria de massas acopladas à cromatografia, para confirmar compostos recém-identificados ou medir a composição da amostra.
O estudo reúne 4.563 resultados qualitativos e 1.224 quantitativos de amostras recolhidas em 17 estados, entre janeiro de 2024 e junho de 2026, com material do leste e do oeste do país.
O método: DART-MS
A triagem usa a espectrometria de massas com análise direta em tempo real (Direct Analysis in Real Time Mass Spectrometry, DART-MS), em que o espectrômetro de massas gera uma assinatura química própria para cada composto presente na amostra.
Segundo o NIST, os espectrômetros convencionais dos laboratórios forenses e de saúde pública levam dezenas de minutos para identificar os componentes de uma amostra, porque o material precisa ser vaporizado e atravessar uma coluna com revestimento especial, a da cromatografia, e a DART-MS dispensa essa etapa e mostra todos os componentes, inclusive adulterantes em quantidade mínima, em segundos.
O que foi encontrado
O resumo do artigo registra um aumento acentuado da complexidade das amostras, muitas com mais de cinco compostos no fim de 2025, e o NIST acrescenta que no começo de 2024 o comum era achar um ou dois aditivos por amostra e que hoje seis ou mais compostos são mais frequentes, o que, segundo Sisco, torna mais difícil tanto analisar a amostra quanto tratar uma overdose.
Entre os sedativos do grupo dos agonistas alfa-2, a xilazina é muito mais comum na costa leste do que no oeste e está sendo substituída pela medetomidina, sedativo bem mais potente que pode causar sintomas graves de abstinência.
O estudo também acompanha a chegada e o deslocamento regional de anestésicos locais, como a lidocaína, a tetracaína e a procaína, e do BTMPS, produto químico industrial usado na fabricação de plásticos, que aparece em amostras de fentanil do leste e do oeste desde o verão americano de 2024 e pode causar inflamação e ardor nos olhos.
Os aditivos seguem um padrão cíclico, cada um subindo e caindo de forma independente, e as amostras do oeste tendem a ter menos aditivos, mas em concentração mais alta do que as do leste.
Na parte quantitativa, o fentanil do oeste teve pureza maior, de cerca de 13% em fração mássica, contra cerca de 5% no leste, e a análise de concentrações em pares indica que a presença de fentanil em estimulantes como a cocaína e a metanfetamina vem provavelmente de contaminação acidental em nível baixo, e não de mistura intencional.
Do alerta à previsão
Com amostras de várias regiões, a equipe consegue ver o deslocamento de alguns aditivos ao longo do tempo, por exemplo da Filadélfia para Delaware e Maryland e depois para o oeste, e agora tenta modelar esse movimento para avisar as autoridades de saúde quando um aditivo novo que surgiu numa região deve chegar a outra.
“O RaDAR permite ao NIST alertar de imediato as autoridades de saúde pública sobre a presença de novos adulterantes na sua região, para que possam planejar um tratamento mais eficaz para as pessoas que consumiram fentanil”, disse Sisco no comunicado.
A página do programa diz que os resultados servem para informar quem usa drogas e a comunidade, para acompanhar a entrada de substâncias novas, como xilazina, medetomidina, nitazenos e BTMPS, e para avisar os laboratórios forenses sobre substâncias novas que podem aparecer nos casos que eles examinam.
Os próximos passos anunciados pelo NIST são um levantamento semelhante de aditivos na cetamina, anestésico cada vez mais presente no mercado ilícito, e o estudo de aditivos nas orfinas, uma classe nova de opioides, alguns mais potentes que o fentanil.
Fonte original: NIST (National Institute of Standards and Technology), Edward Sisco, Elise M. Pyfrom, Meghan G. Appley et al., 08.Out.2026.
Marcadores: fentanil, xilazina, medetomidina, espectrometria de massas, drogas sintéticas, NIST.