Pular para o conteúdo
NEXO CAUSAL
Normas e padrões

Barco autônomo quase invisível causou colisão no Lago Erie, conclui NTSB, que pede regras para embarcações não tripuladas

À esquerda, um iate branco de passeio navegando em alta velocidade e, à direita, o barco autônomo amarelo da NOAA, baixo, coberto de painéis solares e com um mastro de antenas e uma pequena bandeira amarela
Fotos: proprietário da embarcação de recreio (esquerda) e NOAA (direita), conforme NTSB

O Conselho Nacional de Segurança nos Transportes dos Estados Unidos (National Transportation Safety Board, NTSB) concluiu que a colisão entre um barco de pesquisa sem tripulação da Administração Nacional Oceânica e Atmosférica (NOAA) e um barco de passeio no Lago Erie, em 2024, aconteceu porque o barco autônomo era quase impossível de ver ou detectar e porque ninguém o vigiava de forma ativa, e, no relatório divulgado em 27 de outubro de 2026, pediu à Guarda Costeira que crie normas nacionais para esse tipo de embarcação, que hoje não existem nas águas interiores e territoriais americanas.

A colisão

Por volta das 19h12 de 10 de agosto de 2024, um barco de superfície não tripulado (uncrewed surface vessel, USV) modelo SeaTrac SP-48, do Laboratório de Pesquisa Ambiental dos Grandes Lagos (GLERL) da NOAA, foi atingido por um barco de passeio Prestige 450 Flybridge, de 45ft (13,72m), a cerca de 6mi (9,66km) a leste-sudeste de Monroe, em Michigan, segundo o relatório MIR-26-32.

O barco de passeio voltava à marina Safe Harbor Toledo Beach a cerca de 25mph (40,23km/h), com o dono no comando e um sobrinho a bordo, quando bateu em algo, e o dono contou aos investigadores que não havia barco, boia ou objeto por perto e que “não havia nada ali em que pudéssemos bater”.

Uma das duas unidades de propulsão do barco de passeio parou de repente enquanto a outra seguia na mesma rotação, o barco adernou bruscamente e o piloto foi jogado ao piso, e só depois de parar os motores ele e o sobrinho viram na água algo que parecia “um painel de placas solares” de 2ft (0,61m), preso na unidade de propulsão de boreste, e perceberam que tinham batido em outra embarcação.

O barco autônomo se partiu em duas partes, foi declarado perda total, com valor estimado em US$ 186 mil, e o barco de passeio teve danos de cerca de US$ 100 mil, e o dono sofreu um ferimento leve no pé.

A equipe do laboratório só soube do acidente por volta das 19h46, quando a Guarda Costeira telefonou para o engenheiro-chefe, que naquele turno pilotava o barco a partir de casa, perguntando sobre o “barco autônomo amarelo”.

Um barco do tamanho de um caiaque, sem radar nem som

O SeaTrac SP-48 media 15,7ft (4,79m), o tamanho de um caiaque, canoa ou bote, levava um equipamento que coletava e analisava amostras de água para monitorar toxinas de algas no oeste do Lago Erie e, embora tivesse casco amarelo, mostrava só cerca de 1ft (0,3m) de borda acima da água, com a maior parte do convés coberta por painéis solares escuros que se confundiam com a água.

As ondas de 3ft (0,91m) naquele fim de tarde escondiam o casco de tempos em tempos, e o NTSB observa que, a cerca de 2,5mi (4,02km) da margem oeste e perto do pôr do sol, quem navegava ali não esperava encontrar embarcações pequenas e baixas, sem mastro alto.

O barco de passeio tinha radar, mas não estava usando, e o NTSB concluiu que, mesmo ligado, o radar provavelmente não mostraria o barco autônomo, pequeno, de fibra de vidro e sem refletor de radar, que não era obrigatório.

O barco autônomo transmitia sua posição pelo sistema de identificação automática (AIS) classe B, mas a maioria dos barcos movidos só a motor, como o envolvido na colisão, não tem AIS nem é obrigada a ter, e o motor elétrico a bateria fazia pouco barulho, sem nenhum outro dispositivo de sinal sonoro, como exigem as regras de navegação interior.

Para o NTSB, como o piloto do barco de passeio não tinha como perceber o barco autônomo com facilidade, também não podia agir para evitar a colisão, e o órgão concluiu que a visibilidade visual, eletrônica e sonora da embarcação era inadequada para a área em que operava.

O modo automático e a vigilância passiva

No momento da colisão, o laboratório operava o barco no modo que chamava de “adapted hold”, em que a embarcação ficava à deriva controlada dentro de um círculo de 150ft (45,72m) de raio e voltava sozinha aos pontos definidos quando saía dele, enquanto o piloto remoto apenas acompanhava de forma passiva.

Nesse modo, o barco não era capaz de tomar decisões de navegação nem de manobrar para evitar uma colisão, e o NTSB concluiu que a operação sem vigilância ativa deixou a embarcação sem vigia (lookout), o que, somado à baixa visibilidade, a tornava vulnerável a colisão naquela área.

A investigação descartou falha mecânica ou elétrica e problemas de conexão do painel de controle usado pelos pilotos remotos, que não tinham nenhuma habilitação específica da agência de aviação nem da Guarda Costeira para operar o barco.

A causa provável e as seis recomendações

O NTSB determinou que a causa provável foi “a percepção inadequada do barco não tripulado pelas embarcações próximas, dada a área e as condições de operação, e a falta de monitoramento ativo dada a configuração, o modo de operação e o nível de autonomia da embarcação, o que a deixou sem vigia adequado para evitar uma colisão”.

O relatório registra que, na data do acidente, não havia normas do setor sobre visibilidade, capacidade de evitar colisão e segurança de navegação de barcos não tripulados nas águas interiores e territoriais dos Estados Unidos, e afirma que, “à medida que esses barcos se tornam mais comuns nas hidrovias americanas, é fundamental que a Guarda Costeira comece a definir normas e políticas para eles”.

À Guarda Costeira, o NTSB recomendou criar um marco nacional dessas normas e incorporá-las à regulamentação, à NOAA, revisar seu manual de sistemas marinhos não tripulados para garantir que os barcos sejam percebidos, exigir testes de visibilidade diante do tráfego típico de cada área e vigilância compatível com o nível real de autonomia, e à SeaTrac, modificar o projeto do SP-48 para torná-lo mais visível.

Depois da colisão, a SeaTrac, que tinha vendido 25 barcos do modelo até junho de 2026, passou a oferecer uma luz branca piscante no mastro, melhorou o alcance do AIS e criou um kit opcional com refletor de radar passivo e fita refletiva, mas o NTSB avaliou que essas mudanças não teriam evitado a colisão, porque o barco de passeio não tinha AIS nem usava o radar e uma luz piscante seria difícil de distinguir na luz do dia.

O relatório lembra ainda que, depois do acidente, a NOAA publicou uma ordem administrativa e o manual de sistemas marinhos não tripulados, com requisitos para a operação dessas embarcações.

Fonte original: National Transportation Safety Board (NTSB), 27.Out.2026.

Marcadores: NTSB, embarcação não tripulada, colisão, NOAA, Lago Erie, Estados Unidos.

Mais sobre Normas e padrões