Pular para o conteúdo
NEXO CAUSAL
Normas e padrões

Escadas e proteção contra queda: Inglaterra revisa a Part K e estudo propõe piso mínimo de 300mm

Ilustração de uma escada larga e vazia de edifício, com corrimãos metálicos dos dois lados e uma janela alta no topo
Imagem ilustrativa gerada por IA

O Building Safety Regulator (BSR), órgão criado pela lei de segurança de edificações de 2022 da Inglaterra (Building Safety Act 2022), abriu em 19 de outubro de 2026 uma chamada pública por provas e experiências sobre a Part K do regulamento de edificações e sobre o Approved Document K, o guia oficial que diz como cumprir essa parte, e a página da consulta afirma que já se passaram mais de 20 anos desde a última revisão substancial das duas.

A Part K trata da proteção contra queda, colisão e impacto dentro e em volta dos edifícios, o que inclui escadas, escadas de mão, rampas, corrimãos, guarda-corpos, janelas, portas, portões, vidros e barreiras para veículos.

O órgão diz que a chamada não propõe mudanças de regra, que as exigências atuais continuam valendo durante a revisão, que qualquer proposta futura passará por nova consulta e que o prazo para respostas é de 10 semanas.

O relatório sobre escadas de uso geral

Entre os estudos que o BSR, o ministério da habitação (MHCLG) e o órgão de saúde e segurança no trabalho (HSE) publicaram para embasar a revisão está “Approved Document K: general access and utility stairs”, de 43 páginas, feito para o BSR pela Rise and Going Consultancy e assinado por Mike Roys, consultor em projeto e segurança de escadas, com data de 21 de abril de 2026 e publicação no portal do governo em 14 de outubro de 2026.

O estudo amplia um trabalho anterior, de 2025, que tratava só das escadas de residências, para as escadas de edificações que não são moradia, divididas pelo Approved Document K de 2013 em duas categorias: as de acesso geral (general access), usadas por todos no dia a dia como caminho normal entre andares, e as utilitárias (utility), usadas para fuga, manutenção ou outros fins que não o trânsito diário.

O primeiro objetivo foi avaliar a proposta de alinhar as escadas de acesso geral à norma britânica BS 5395-1:2010, que trata das escadas de uso normal, e o segundo foi comparar as escadas utilitárias com as escadas privativas da mesma norma, levando em conta quantas vezes por dia cada escada é descida.

Piso, espelho e a regra 2R+G

Na linguagem de escadas, o piso (going) é a profundidade horizontal do degrau e o espelho (rise) é a altura entre um degrau e o seguinte, e a tradição britânica limitava também a soma de duas vezes o espelho com o piso, a regra 2R+G, entre 550mm e 700mm.

Hoje o Approved Document K pede, nas escadas de acesso geral, espelho de 150mm a 170mm e piso de 250mm a 400mm, enquanto a BS 5395-1:2010 recomenda, para escadas de uso normal, espelho de 150mm a 180mm e piso de 300mm a 450mm, sem a regra 2R+G.

O relatório reconstitui a história desses limites desde a BS 5395-1 de 1977 e mostra que o espelho máximo de 170mm veio do Approved Document M de 1992, voltado à acessibilidade, que, segundo o autor, se baseou em opiniões e grupos de discussão com pouca ou nenhuma prova experimental, e foi copiado para o Approved Document K de 2013.

O método: risco de pisada longa na descida

O estudo usa os resultados de dez anos de ensaios do BRE, instituto britânico de pesquisa em construção, financiados pelo governo entre 1998 e 2008, nos quais voluntários subiam e desciam escadas experimentais com várias combinações de piso e espelho.

A medida central é a sobreposição do pé (overhang), quanto do pé fica além da borda do degrau na descida, porque a pisada longa (overstep), em que o pé avança demais e perde apoio na quina, é apontada no relatório como a principal causa de quedas em escada.

Numa tabela de 2003 reproduzida no relatório, um lance de 14 degraus com piso de 250mm descido 5 vezes por dia tem uma pisada longa a cada 11 anos, e descido 2.000 vezes por dia, uma a cada 10 dias, enquanto com piso de 300mm o intervalo passa de mil anos até 100 descidas por dia e chega a 73 anos com 2.000 descidas diárias, número típico de estações de transporte público.

O autor ressalva que nem toda pisada longa vira queda, mas que ela é o principal indicador da probabilidade de queda.

Os resultados

Pelas contas do relatório, aumentar o piso mínimo de 250mm para 300mm reduz em 99,96% a chance de uma pisada longa, e o risco com piso de 250mm é 2.708 vezes maior que com 300mm, e o resumo executivo estima que a mudança tem potencial para reduzir em até 80% o risco de todas as quedas em escada.

A variação entre degraus pesa no mesmo sentido, porque a norma de precisão da construção prevê diferenças de 4mm a 6mm de um piso para outro, o que multiplica o risco de uma escada de 300mm por até dez, e numa escada de 250mm leva o risco relativo de 2.708 para mais de 15.000 vezes.

Para compensar o espaço maior do piso, o relatório defende ampliar a faixa de espelho para 130mm a 180mm e o limite de degraus por lance de 12 para 20, e mostra que, nas alturas entre pisos típicas de 3m a 3,6m, a escada resultante ocupa menos espaço que a atual, porque o lance mais longo pode dispensar um patamar intermediário.

A estimativa de economia para o serviço público de saúde britânico, o NHS, é de £19.287.514 com o piso de 300mm, calculada para 8.000 edificações novas por ano, de um total de cerca de 1,8 milhão de edificações não residenciais na Inglaterra, com efeito cumulativo.

Para as escadas utilitárias, o estudo conclui que passar o espelho máximo de 190mm para 200mm tem efeito desprezível no risco, e propõe piso mínimo de 275mm quando a escada tiver menos de 50 descidas por dia e o padrão das escadas de acesso geral acima disso, deixando o piso de 250mm e o espelho de 200mm para escadas usadas menos de uma vez por dia, como acesso a casa de máquinas ou saída de emergência que atende menos de 100 pessoas.

Os limites que o próprio autor aponta

O relatório diz que é preciso mais pesquisa para saber se o espelho de 180mm aumenta o risco para pessoas com deficiência de locomoção, embora um ensaio com estudantes do ensino médio não tenha mostrado diferença percebida entre espelhos de 170mm e 180mm, e que o piso máximo ideal não pode ser fixado sem novos experimentos.

O custo da mudança não foi calculado por causa da variedade de tipos de escada e de alturas de edifício, e o estudo não tratou de corrimãos, iluminação, ofuscamento, perfil da quina e sinalização tátil, que também influem no risco.

O relatório observa ainda que a uniformidade dos degraus, que o Approved Document K já exige, é muito difícil de medir na escada pronta e por isso não é facilmente conferida pelos fiscais de obra.

Fonte original: Building Safety Regulator (GOV.UK), Mike Roys (Rise and Going Consultancy), 14.Out.2026.

Marcadores: escadas, queda, geometria de degrau, Approved Document K, BS 5395, Inglaterra.

Mais sobre Normas e padrões