Carl Case é declarado inocente após 44 anos preso no Novo México, com ajuda da entomologia forense

Carl Case saiu da Penitenciária do Novo México, ao sul de Santa Fé, ao pôr do sol de terça-feira, 27 de outubro de 2026, livre pela primeira vez em 44 anos, depois que a juíza distrital Lisa Riley se disse convencida, por provas novas, de que ele era inocente do estupro e do assassinato de uma adolescente encontrada morta às margens do rio Pecos, perto de Carlsbad, e uma dessas provas veio da entomologia forense, a análise de insetos encontrados no corpo para estimar há quanto tempo a pessoa morreu, segundo o jornal Santa Fe New Mexican.
A condenação de 1982
Case foi condenado em 1982 à prisão perpétua mais 14 anos, tinha 19 anos quando foi preso e saiu aos 65, e a condenação se apoiou quase toda no depoimento de três testemunhas oculares descritas nos documentos do processo como “garotos”, também eles.
Dois desses jovens se retrataram mais tarde e disseram ter mentido sob pressão das autoridades, por medo de serem eles próprios processados, segundo os autos e reportagens anteriores do jornal.
“Eu usei o que eles me disseram, só juntei dois mais dois e contei uma história”, disse depois uma das testemunhas, que contou ter inventado “uma história muito simples, com o pouco de informação que a polícia basicamente tinha me dado e o que eu tinha ouvido os outros rapazes dizerem na minha audiência de fiança”, feita simples “para ser fácil de lembrar, porque eles esperavam que eu a repetisse várias vezes”.
Mesmo com as admissões de falso testemunho, Case perdeu vários recursos na Justiça estadual e federal ao longo dos anos, até que os advogados Marc Lowry e Clay Wilwol, do escritório Rothstein Donatelli, assumiram o caso, num trabalho que reuniu três gerações de advogados do escritório, o New Mexico Innocence and Justice Project e estudantes de direito da Universidade do Novo México.
O que os insetos mostraram
A juíza Riley escreveu que foi convencida em parte por provas científicas novas, obtidas com técnicas forenses que não existiam na época da condenação, em especial a entomologia forense, que analisou o desenvolvimento das larvas vistas nas fotos do corpo da vítima para contestar a tese da acusação sobre a data da morte.
Segundo um documento do processo citado pelo jornal, a “análise científica dos espécimes de insetos fotografados no corpo”, feita “em conjunto com dados climatológicos de ponta sobre a temperatura ambiente no local onde estava o corpo”, indica que a vítima provavelmente morreu entre meados e o fim de dezembro de 1981, e não em 1º de janeiro de 1982, a data proposta pela promotoria.
A data importa porque a confissão de falso testemunho das testemunhas, segundo a juíza, também explicava “inconsistências materiais sobre os fatos básicos do caso”, inclusive a forma como o grupo se reuniu naquela noite e quando e onde o crime aconteceu.
As outras provas da decisão
A juíza também levou em conta provas sobre a “consciência de culpa” demonstrada pela terceira testemunha, que se matou alguns anos depois de receber, em dezembro de 2003, a visita de Todd Coberly, então estudante de direito que reunia provas a favor de Case e hoje juiz no Primeiro Distrito Judicial, e de ouvir dele que as outras duas testemunhas tinham se retratado.
Para Riley, as declarações dessa testemunha a Coberly, o comportamento dela durante a visita e o consumo de álcool e os pesadelos descritos depois pela ex-mulher são “prova persuasiva e confiável” de que ela tinha a consciência pesada pelo assassinato, a ponto de acreditar que poderia ser processada, e o advogado Lowry disse acreditar que foi ela quem matou a adolescente.
A decisão cita ainda uma prova que tinha sido escondida da defesa, uma entrevista policial em que essa mesma testemunha admitiu ter tido contato sexual com a vítima e mostrou saber que ela tinha sido golpeada na cabeça, como prova convincente de que Case foi condenado por engano.
A juíza também deu peso ao depoimento de um homem que, ainda adolescente, foi condenado por participação no crime e mandado para uma instituição de menores, e que disse ter recebido da promotoria oferta de imunidade para “ajudar na condenação”, mas recusou e sustentou sempre a própria inocência, um testemunho que Riley considerou “altamente crível, extremamente convincente e muito confiável”.
Para a juíza, esse depoimento, somado ao que as outras testemunhas disseram e à forma como o estado lidou com elas, “indica como o estado dava crédito ou desacreditava o testemunho de uma pessoa de forma oportunista, sem levar em conta a verdade”.
Inocência de fato e o recurso do estado
“Com base em todas as provas confiáveis apresentadas ao tribunal, o senhor Case cumpriu seu ônus probatório para obter o habeas corpus com fundamento em inocência de fato”, concluiu Riley.
Lowry e Wilwol disseram ao jornal acreditar que Case é um dos primeiros presos do Novo México, senão o primeiro, a ser libertado por provar a “inocência de fato” (actual innocence) desde que a Suprema Corte do estado abriu caminho para esse tipo de pedido, numa decisão de 2007.
O estado do Novo México recorreu da decisão naquela mesma semana, mas Riley mandou soltar Case na terça-feira, depois que os advogados argumentaram que a lei exige a concessão da medida mesmo com recurso pendente, e Wilwol disse acreditar que a decisão vai resistir ao recurso.
Na saída da prisão, Case disse que rezou todos os dias durante anos para ser libertado, mesmo depois de cada recurso negado, e que foi a equipe de defesa que manteve sua esperança: “Eles acreditaram em mim, foram os únicos, então eu acreditei neles”.
Fonte original: Santa Fe New Mexican, 27.Out.2026.
Marcadores: entomologia forense, erro judiciário, inocência, Novo México, Estados Unidos.