Prédio que desabou em Istambul tinha andares fora da licença com ordem de demolição de 1989 nunca cumprida, aponta laudo preliminar

O laudo pericial preliminar sobre o prédio que desabou parcialmente em Maltepe, no lado asiático de Istambul, na Turquia, concluiu que quatro andares foram construídos fora da licença e que as ordens de demolição desses andares, emitidas em 1989 e 1990, nunca foram cumpridas, segundo o jornal turco Milli Gazete, que noticiou o documento em 9 de outubro de 2026, um dia depois do desabamento que matou cinco pessoas, entre elas três crianças.
O desabamento
O prédio ficava na rua Doğu, no bairro de Cevizli, e por volta das 5h40 da quinta-feira, 8 de outubro de 2026, os três andares inferiores cederam e deixaram os quatro de cima apoiados sobre os escombros, segundo a agência AFP, reproduzida pelo Turkish Minute.
O edifício tinha térreo e mais seis andares, com uma loja no térreo e moradias nos andares de cima, num total de 12 apartamentos e 33 moradores registrados, e nos três pavimentos que desabaram ficavam a loja e quatro apartamentos, segundo o Milli Gazete.
Nove pessoas foram retiradas com vida dos escombros, o risco de novo desabamento dificultou o resgate e levou à retirada preventiva de 55 moradores dos arredores, e as buscas terminaram às 6h15 da sexta-feira, 9 de outubro de 2026, quando as equipes chegaram ao corpo da última vítima, segundo o gabinete do governador de Istambul.
Andares que não estavam na licença
O prédio foi construído em 1987, segundo o governador de Istambul, Davut Gül, e o vice-prefeito de Istambul, Nuri Aslan, disse que o subsolo, o térreo e os dois primeiros andares seguiam as normas da época, enquanto os demais foram acrescentados depois.
A prefeita de Maltepe, Esin Köymen, afirmou que os registros do arquivo municipal mostram que os dois andares de cima foram construídos sem licença depois da emissão do habite-se, e que a prefeitura não tinha recebido reclamação anterior sobre o prédio, cuja licença de construção original foi emitida pela prefeitura vizinha de Kartal, porque a de Maltepe ainda não existia, segundo o site turco soL.
O laudo preliminar dos peritos foi além da conta da prefeita e apontou quatro andares fora da licença, o terceiro, o quarto, o quinto e o sexto, e registrou que a fiscalização lavrou autos de embargo por causa dessas irregularidades e que o conselho executivo municipal (encümen) decidiu demolir esses pavimentos em 14 de agosto de 1989 e em 11 de junho de 1990, decisões que não foram executadas, segundo o Milli Gazete.
Com isso, a irregularidade não foi descoberta só agora, porque já tinha sido objeto de atos oficiais há cerca de 36 anos, e a investigação passou a examinar também o histórico de obra e de fiscalização do prédio.
Trincas desde abril
A gerente de uma loja do térreo disse à imprensa turca que tinha notado trincas na estrutura desde abril, informação reproduzida pela AFP, e ainda não há conclusão técnica que ligue o desabamento ao acréscimo de andares, como ressalvou o Milli Gazete no dia do acidente.
Durante a remoção dos escombros, os técnicos retiraram amostras de concreto dos pilares, os chamados testemunhos, para exame em laboratório, e alguns prédios vizinhos foram esvaziados e lacrados por precaução, segundo o soL.
Quem responde
A promotoria do lado asiático de Istambul abriu investigação e designou um promotor-chefe adjunto e dois promotores para o caso, e o Ministério do Interior nomeou dois inspetores para verificar se servidores públicos tiveram responsabilidade por negligência ou falha no planejamento, na construção ou nas alterações do prédio, segundo a agência turca DHA citada pela AFP.
O arquiteto que assinou como responsável técnico na licença de construção e o encarregado da obra foram detidos em 8 de outubro de 2026 e presos por decisão judicial no dia seguinte, e o laudo preliminar aponta culpa dos dois e também dos proprietários e dos construtores, segundo o soL e o Milli Gazete.
O construtor do prédio morreu em 2016, segundo o soL, e a investigação também deve examinar a responsabilidade dos servidores que assinaram os documentos de licença do edifício.
Contexto
Istambul e outras regiões da Turquia passam por um programa de renovação urbana que pretende substituir prédios antigos e vulneráveis a terremotos por moradias mais seguras, e a causa do desabamento de Maltepe ainda não foi oficialmente estabelecida, porque o laudo divulgado até agora é preliminar e depende dos exames técnicos que seguem em andamento.
Fonte original: Turkish Minute (agência AFP), 09.Out.2026.
Marcadores: desabamento, construção irregular, laudo pericial, Istambul, Turquia.