Terremoto da Venezuela: vídeo de câmera de segurança, solo mole e ressonância entram na investigação da queda das torres de Caraballeda

Quatro meses depois dos dois terremotos que atingiram o norte da Venezuela em 24 de junho de 2026, a investigação da agência Associated Press, publicada em 30 de setembro, e análises de engenheiros publicadas em outubro apontam uma combinação de solo mole, proximidade da falha, ressonância dos prédios e um pulso sísmico muito forte para explicar a queda das torres de habitação pública de Caraballeda, no estado de La Guaira, enquanto o governo não divulgou os documentos que permitiriam saber se as normas de construção foram cumpridas.
O que aconteceu
A sequência teve um tremor de magnitude 7,2 seguido, 39 segundos depois, por outro de magnitude 7,5, o que os sismólogos chamam de dupleto, e os dois terremotos mataram mais de 6.500 pessoas e deixaram mais de 17.000 desabrigadas, segundo a AP.
Os epicentros ficaram a cerca de 80 a 110 milhas (128,7 a 177,0km) de Caracas, mas o dano foi grave na capital e no litoral de La Guaira, e a consultoria de engenharia americana SGH (Simpson Gumpertz & Heger) registrou que, no início de julho, as autoridades contavam cerca de 800 prédios desabados, quase 200 deles destruídos, com intensidade estimada em grau IX na escala Mercalli modificada nas áreas mais atingidas.
Em Caraballeda, o conjunto OPPPE, de grandes torres de concreto do programa habitacional do governo, teve 16 torres que desabaram por completo e outras 27 que precisam ser demolidas, segundo reportagem do Christian Science Monitor de julho.
Torres erguidas às pressas sobre solo de enxurrada
A AP ouviu especialistas e ex-funcionários em dezenas de entrevistas e concluiu que a origem do problema está em 2010, quando deslizamentos e chuvas fortes desalojaram mais de 100.000 pessoas no país e o governo correu para construir apartamentos numa faixa de terra entre o mar do Caribe e as montanhas, sobre um solo siltoso e solto, depositado ao longo de séculos por enchentes e deslizamentos.
Os especialistas disseram à agência que o governo desconsiderou o histórico de enchentes e deslizamentos da área, que pode agravar o efeito de um terremoto, e que a proximidade da falha de San Sebastián, que corre ao largo da costa e passa por baixo do estado de La Guaira, aumentava o risco.
Ressonância e pulso de falha próxima
Os prédios de Caraballeda tinham entre 10 e 20 andares, altura em que a estrutura pode oscilar exatamente no mesmo ritmo das ondas sísmicas, fenômeno conhecido como ressonância, que faz o prédio balançar mais longe e por mais tempo e aumenta o esforço sobre os pilares, segundo os especialistas ouvidos pela AP.
Os engenheiros Brian Carlton e Jörgen Johansson, do instituto norueguês de geotecnia NGI, explicaram em 20 de outubro de 2026 que o solo e o prédio têm cada um o seu período natural de oscilação e que, quando os dois coincidem, um reforça o outro e o tremor se multiplica, mecanismo que já explicou a concentração de danos em prédios de certa altura em Caracas em 1967 e na Cidade do México em 1985, mas os dois ressalvam que descrevem mecanismos gerais e que só uma investigação em cada local pode dizer por que um prédio específico caiu.
O geólogo Michael Schmitz, da Universidade Central da Venezuela, disse à AP que os terremotos ainda produziram o tipo de golpe que os engenheiros mais temem, o pulso de falha próxima, porque a energia sísmica se acumulou na frente da ruptura enquanto ela avançava para o leste e atingiu a base dos prédios com força, tirando o apoio deles e impedindo que dissipassem energia ao oscilar.
O vídeo que substituiu o sismógrafo
A intensidade do tremor muda de bairro para bairro e até de rua para rua, e o governo tinha deixado os instrumentos sísmicos locais pararem de funcionar, de modo que os cientistas ficaram sem dados para medir o que o solo de Caraballeda sofreu, segundo a AP.
O professor Eduardo Miranda, de engenharia civil e ambiental da Universidade Stanford, e a equipe dele analisaram então as imagens de duas câmeras de segurança perto de um boliche em Caraballeda, que mostram oito prédios desabando ao mesmo tempo em menos de um segundo, e, acompanhando o movimento quadro a quadro, reconstruíram como o terremoto produziu o que aparece no vídeo.
A análise revelou um dos maiores movimentos do solo já documentados no mundo e é, segundo a AP, a única informação quantitativa sobre o tremor perto da ruptura, e o artigo da equipe, em revisão para publicação no The Seismic Record, revista da Sociedade Sismológica da América (Seismological Society of America), concluiu que os prédios foram empurrados para um lado tão longe e por tanto tempo que chegaram ao ponto de ruptura.
Miranda disse à agência que mesmo estruturas que cumprem as normas de segurança do Japão, das mais rigorosas do mundo, teriam dificuldade de resistir ao que aconteceu em 24 de junho de 2026.
O que as normas dizem e o que falta saber
A SGH lembra que a Venezuela não tem um código de obras único, e sim uma série de normas COVENIN, com a norma sísmica atual sendo a COVENIN 1756-1:2019, e aponta como mecanismos de colapso observados no país o desabamento andar sobre andar, o dano grave em pilares e a perda de resistência a esforços horizontais, ligados a detalhamento não dúctil, armadura de confinamento insuficiente e pavimento flexível (soft story), mas essa avaliação trata sobretudo dos prédios de concreto mais antigos, e as torres de Caraballeda são posteriores a 2010.
O engenheiro Carlton, do NGI, resume que quase todo país tem um código de obras adequado e que o problema é que muitas vezes ele não é seguido no projeto ou na execução, e a AP registra que não se sabe se as empreiteiras do governo cumpriram as normas venezuelanas nem se houve estudo de solo antes da obra, ou se ele foi ignorado.
O governo não tornou públicos as plantas, os estudos de solo nem os registros de fiscalização das torres, e o governo da presidente interina Delcy Rodríguez também não informou se fez as análises periciais no local que os especialistas consideram indispensáveis para apontar causas e responsáveis, enquanto a limpeza, com demolição a explosivos de prédios danificados, e a reconstrução seguem em andamento, segundo a AP.
Fonte original: Associated Press (via WKMG ClickOrlando), 30.Set.2026.
Marcadores: terremoto, engenharia sísmica, colapso estrutural, Venezuela, ressonância.