Prisões indevidas na região de Jacksonville, na Flórida, expõem uso de reconhecimento facial sem investigação complementar

O gabinete do xerife de Jacksonville (Jacksonville Sheriff’s Office), na Flórida (Estados Unidos), prendeu um homem de 38 anos com base apenas numa indicação de reconhecimento facial, e o caso, revelado pelo Florida Trib, da rádio WLRN, e comentado pelo site Biometric Update em 1º de outubro de 2026, se soma a outras prisões indevidas na mesma região que partiram de indicações do software.
Fotos de um inocente usadas por outra pessoa
As fotos que levaram à prisão tinham sido enviadas a um policial disfarçado por uma conta no aplicativo de encontros Skout, e a conta pertencia a um condenado por crime sexual, que usou duas imagens copiadas do Facebook do homem de 38 anos.
A polícia passou as fotos pelo FACESNXT, um banco de referência biométrica mantido pelo gabinete do xerife do condado de Pinellas com algoritmos da empresa Idemia, recebeu um candidato e prendeu esse candidato, um gerente-assistente de supermercado e pai de dois filhos que não tinha relação com o crime.
Depois de pagar fiança, ele foi obrigado pela Justiça a morar longe dos filhos, um deles ainda bebê, e o Florida Trib não publicou o nome dele para não atrapalhar a busca de emprego no futuro.
O FACESNXT tem cerca de 15 milhões de fotos de fichamento policial e cerca de 25 milhões de fotos de carteira de motorista, e hoje 221 órgãos municipais, estaduais e federais têm acesso a ele, segundo o Biometric Update.
Os casos anteriores
Em junho de 2026 veio a público o caso de Jalil Richardson, morador de Charlotte, na Carolina do Norte, preso pelo mesmo gabinete do xerife numa investigação de furto de carro depois que um policial comparou o suspeito filmado por câmeras de segurança com uma identidade falsa da Geórgia usada na venda do veículo e o sistema apontou Richardson com 85% de semelhança.
Richardson perdeu o emprego e a guarda dos filhos e disse que “não houve investigação adequada nem para entrar em contato comigo ou ver se eu sequer estava na Flórida”, e a organização de direitos civis ACLU afirma que ele passou três meses preso até que as acusações fossem retiradas.
Em agosto de 2024, a polícia de Jacksonville Beach prendeu Robert Dillon, de 52 anos, morador de Fort Myers, a mais de 300 milhas (482,8km) dali, acusado de tentar atrair uma criança numa lanchonete, depois que um funcionário do gabinete do xerife de Jacksonville passou fotos granuladas de câmeras de segurança pelo reconhecimento facial e o programa indicou Dillon como possível correspondência.
Segundo a ação movida em junho de 2026 pela ACLU contra a polícia de Jacksonville Beach e os gabinetes dos xerifes de Jacksonville e de Pinellas, o mandado de prisão saiu com base só nessa indicação e no reconhecimento feito por um funcionário da lanchonete numa sessão de fotos, que a ação considera viciada porque o software tende a apontar alguém parecido com o suspeito.
A ação também diz que a polícia não contou ao juiz que o suspeito era cliente frequente da lanchonete, que Dillon morava a cinco horas de distância e nunca tinha estado em Jacksonville Beach, e que a busca nos leitores automáticos de placas não registrou o carro dele perto do local nos dias do crime, e as acusações contra ele foram retiradas.
Indicação não é prova
Em resposta à ação de Dillon, o gabinete do xerife de Pinellas, que opera o sistema usado em todo o estado, disse que os resultados do reconhecimento facial “nunca são correspondências” e que é necessária investigação independente.
O Biometric Update lembra que a indicação do reconhecimento facial, sozinha, não pode servir de causa provável para uma prisão, e que nos casos de Jacksonville a acusação é justamente a de que a polícia não fez nenhuma outra apuração antes de prender.
Fonte original: Biometric Update, 01.Out.2026.
Marcadores: reconhecimento facial, prisão indevida, causa provável, Flórida, Estados Unidos.